“A Layer 1 da Circle combina USDC como gás, finalização em subsegundos, câmbio nativo, compatibilidade com EVM e infraestrutura voltada ao mercado financeiro institucional”
A evolução das stablecoins transformou ativos digitais em uma infraestrutura cada vez mais relevante para pagamentos, liquidação, câmbio e movimentação de capital. Porém, à medida que bancos, gestoras, empresas de pagamentos e outros participantes institucionais entram nesse mercado, surgem exigências que vão além da simples transferência de tokens.
É nesse contexto que surge a Arc, blockchain Layer 1 desenvolvida pela Circle com uma proposta diferente da maioria das redes generalistas: funcionar como uma infraestrutura voltada à economia baseada em stablecoins e ativos tokenizados.
A rede combina USDC como ativo nativo para pagamento de taxas, finalização determinística em subsegundos, compatibilidade com a EVM, um mecanismo nativo de câmbio e uma arquitetura de validadores permissionados. Ao mesmo tempo, mantém acesso permissionless para desenvolvedores e busca integrar serviços voltados a pagamentos, mercados de capitais, tokenização, interoperabilidade e agentes de inteligência artificial.
Com o lançamento da mainnet pública previsto para setembro de 2026, a Arc representa uma das principais apostas da Circle para ampliar o papel das stablecoins dentro da infraestrutura financeira global.
Mas como essa blockchain funciona na prática? Por que a Circle decidiu criar uma nova Layer 1? Como funcionam seu consenso, taxas, validadores, privacidade e mecanismo de câmbio? E qual é o papel do token ARC nesse ecossistema?
Este artigo analisa a arquitetura da Arc, suas principais tecnologias, aplicações e limitações, além de separar os recursos já disponíveis daqueles previstos para o lançamento ou ainda presentes no roadmap.
O Que é a Arc?
A Arc é uma blockchain Layer 1 desenvolvida pela Circle para servir como infraestrutura para stablecoins, pagamentos, câmbio, ativos tokenizados e outras aplicações financeiras on-chain. Sua proposta parte de uma constatação simples: embora blockchains públicas tenham demonstrado a capacidade de movimentar e programar ativos digitais, muitas delas não foram projetadas originalmente para atender às necessidades específicas de instituições financeiras e grandes empresas.
Bancos, gestoras, empresas de pagamentos e outros participantes institucionais precisam lidar com questões como previsibilidade de custos, rapidez na liquidação, privacidade de determinadas informações comerciais, conformidade regulatória e integração com diferentes moedas e sistemas financeiros. A Arc foi concebida tendo esse conjunto de necessidades como parte central de sua arquitetura.
Em vez de tentar competir exclusivamente pelo título de blockchain mais descentralizada ou pela maior capacidade bruta de transações por segundo, a rede busca ocupar uma posição mais específica: funcionar como uma infraestrutura aberta para desenvolvimento, mas orientada para a movimentação de valor em um ambiente financeiro cada vez mais digital e tokenizado.
A proposta da Circle para uma infraestrutura financeira on-chain
A criação da Arc representa uma expansão da estratégia da Circle. A empresa já ocupa uma posição importante no mercado de stablecoins por meio do USDC e, ao longo dos últimos anos, passou a desenvolver produtos e serviços voltados para pagamentos, liquidação e integração entre sistemas financeiros tradicionais e redes blockchain.
Com a Arc, a Circle deixa de atuar apenas como emissora de uma stablecoin que circula em diferentes blockchains e passa também a desenvolver uma infraestrutura própria para a utilização desses ativos.
A ideia é criar uma rede na qual diferentes componentes das finanças digitais possam operar de forma integrada. Stablecoins podem ser utilizadas para pagamentos e liquidação, moedas digitais de diferentes jurisdições podem participar de operações de câmbio, ativos do mundo real podem ser tokenizados e aplicações financeiras podem ser construídas utilizando contratos inteligentes.
Essa proposta é particularmente relevante porque uma infraestrutura financeira possui necessidades diferentes de uma blockchain criada para finalidades mais amplas. Para uma aplicação institucional, por exemplo, não basta que uma transação seja tecnicamente possível. O custo precisa ser previsível, a liquidação precisa ocorrer dentro de parâmetros conhecidos e determinadas informações não podem necessariamente ficar completamente expostas ao público.
A Arc procura atender a esse contexto combinando diferentes características em sua arquitetura. A compatibilidade com a Ethereum Virtual Machine permite utilizar ferramentas e contratos já conhecidos no ecossistema Ethereum. As taxas denominadas em USDC buscam reduzir a necessidade de lidar com um ativo volátil exclusivamente para pagar pela execução das transações. A finalidade rápida pretende oferecer maior previsibilidade para pagamentos e liquidações. Já os mecanismos de privacidade planejados buscam responder a uma das principais dificuldades da utilização de blockchains públicas por empresas: a exposição indiscriminada de informações comerciais.
A proposta, portanto, não é simplesmente colocar serviços financeiros dentro de uma blockchain existente. A Circle está tentando construir uma blockchain cuja arquitetura seja moldada desde o início pelas necessidades de aplicações financeiras.
Por que a Circle criou uma nova Layer 1
A decisão de criar uma nova Layer 1 pode parecer contraditória à primeira vista. O USDC já possui presença em diversas blockchains e é utilizado em ecossistemas como Ethereum e diversas redes compatíveis com a EVM, além de outros sistemas como Solana e Sui, entre outras redes. Por que, então, criar uma infraestrutura própria?
Uma das respostas está justamente no grau de controle sobre as características fundamentais da rede.
Quando uma empresa desenvolve aplicações sobre uma blockchain existente, ela precisa trabalhar dentro das regras definidas pela arquitetura daquela rede. O modelo de taxas, o token utilizado para pagar pelo gás, o mecanismo de consenso, o tempo de finalização, as limitações da máquina virtual, o nível de confidencialidade das informações e outras características fazem parte de um ambiente que não foi necessariamente criado para atender às necessidades específicas daquela aplicação.
Ao desenvolver uma Layer 1 própria, a Circle pode projetar uma infraestrutura na qual essas decisões estejam alinhadas desde o início com seu objetivo principal.
Um dos exemplos mais claros é o modelo de taxas. Em muitas blockchains, os usuários precisam manter um token nativo, frequentemente sujeito à volatilidade do mercado, para pagar pelo gás. Para uma instituição que precisa movimentar grandes volumes de capital e realizar registros contábeis precisos, isso adiciona uma variável adicional à operação. Na Arc, o uso do USDC para pagamento das taxas busca tornar esse componente diretamente relacionado a uma unidade de conta baseada no dólar.
Outro exemplo é a própria estrutura de validação. A Arc inicia sua operação com um conjunto de validadores permissionados, formado por participantes selecionados para operar a infraestrutura de consenso. Esse modelo representa um trade-off importante em relação a redes nas quais qualquer participante que cumpra determinados requisitos pode se tornar validador, mas pode oferecer características consideradas relevantes para determinados usos institucionais, como maior controle operacional e um ambiente de validação inicialmente mais previsível.
A Circle também pode desenvolver mecanismos voltados especificamente para operações financeiras, como funcionalidades relacionadas a câmbio, integração entre diferentes ativos tokenizados e privacidade compatível com necessidades de auditoria e conformidade, enquanto mantém informações empresariais sensíveis protegidas.
Isso não significa que uma Layer 1 própria seja automaticamente superior a utilizar uma blockchain já existente. Pelo contrário, a decisão envolve novos trade-offs. Criar uma rede exige atrair desenvolvedores, aplicações, liquidez, validadores e usuários para formar um ecossistema. A interoperabilidade com outras blockchains também se torna fundamental, já que uma infraestrutura isolada teria utilidade limitada em um mercado formado por múltiplas redes.
A criação da Arc deve ser entendida, portanto, como uma escolha de especialização. A Circle optou por construir uma infraestrutura própria para poder definir determinados elementos fundamentais da rede de acordo com uma proposta específica: criar uma camada voltada à economia baseada em stablecoins e ativos financeiros tokenizados.
Arc como “Economic Operating System” para a internet
A Circle descreve a Arc como um possível “Economic Operating System”, ou sistema operacional econômico, para a internet. A expressão ajuda a entender a ambição do projeto, mas não significa que a blockchain funcione literalmente como um sistema operacional tradicional instalado em computadores.
A comparação está relacionada à função de uma camada de infraestrutura.
Um sistema operacional fornece regras e componentes básicos que permitem a execução de diferentes programas. Aplicações distintas podem funcionar sobre essa mesma base sem precisar recriar, do zero, mecanismos fundamentais de gerenciamento e comunicação.
A Arc pretende desempenhar um papel semelhante no campo econômico. A ideia é oferecer uma infraestrutura comum sobre a qual diferentes aplicações financeiras possam ser construídas e interagir entre si.
Uma empresa pode utilizar essa infraestrutura para realizar pagamentos globais. Uma instituição financeira pode liquidar operações utilizando stablecoins. Uma gestora pode emitir representações tokenizadas de determinados ativos. Outra aplicação pode utilizar contratos inteligentes para automatizar regras de pagamento, garantias ou distribuição de recursos.
Em todos esses casos, os participantes não precisam criar uma nova rede para cada aplicação. Eles podem utilizar uma infraestrutura compartilhada que fornece mecanismos de execução, consenso, liquidação e programação de ativos.
Essa visão também está relacionada à crescente importância da tokenização. À medida que diferentes ativos passam a possuir representações digitais programáveis, surge a necessidade de uma infraestrutura capaz de movimentá-los e permitir sua interação. Stablecoins podem funcionar como meio de liquidação, enquanto outros tokens podem representar fundos, títulos, créditos ou diferentes instrumentos financeiros.
Nesse modelo, a blockchain deixa de ser apenas uma tecnologia utilizada para transferir criptomoedas. Ela passa a funcionar como uma camada compartilhada para executar operações econômicas programáveis.
É justamente nesse ponto que a expressão “Economic Operating System” ganha significado. A ambição da Arc é fornecer componentes básicos para que pagamentos, câmbio, ativos tokenizados e aplicações financeiras possam utilizar uma mesma infraestrutura on-chain.
Naturalmente, essa é uma visão de longo prazo, e sua concretização dependerá da adoção real da rede. Uma arquitetura tecnicamente adequada não garante, por si só, que empresas e instituições migrarão suas operações para uma nova blockchain. O crescimento do ecossistema, a presença de liquidez, a integração com outras redes e a evolução do ambiente regulatório serão fatores decisivos para determinar até que ponto a Arc conseguirá cumprir essa proposta.
Uma blockchain aberta para desenvolvedores com validadores permissionados
Uma das características mais importantes da Arc é a separação entre quem pode utilizar a rede e quem participa diretamente de sua validação.
A Arc foi projetada para permitir que desenvolvedores criem aplicações e contratos inteligentes utilizando ferramentas compatíveis com a EVM. Nesse sentido, seu ambiente de desenvolvimento segue uma lógica aberta: aplicações podem ser construídas sobre a infraestrutura sem que cada desenvolvedor precise operar um nó validador ou fazer parte do grupo responsável pelo consenso.
Por outro lado, a validação da rede, especialmente em sua fase inicial, não segue o mesmo modelo aberto encontrado em blockchains permissionless. A produção e validação de blocos dependem de um conjunto permissionado de participantes.
Essa distinção é importante porque os termos aberta e descentralizada não representam uma única característica.
Uma blockchain pode ser aberta para usuários e desenvolvedores, permitindo que qualquer pessoa interaja com aplicações e publique contratos, mas ainda possuir restrições sobre quem participa da camada de consenso. Da mesma forma, uma rede pode ter validação aberta, mas impor limitações em outras partes de seu ecossistema.
No caso da Arc, essa escolha está relacionada à sua orientação inicial para o mercado institucional. A rede procura combinar uma plataforma de desenvolvimento aberta com uma camada de validação composta por participantes previamente definidos.
Esse modelo pode oferecer vantagens operacionais para determinadas aplicações, especialmente durante a fase inicial de construção da rede, mas também cria um debate inevitável sobre centralização e dependência institucional. Quanto menor for o número de entidades responsáveis pela validação, maior tende a ser a necessidade de analisar sua distribuição, independência e capacidade de resistência a falhas ou pressões externas.
A própria evolução futura da Arc será importante nesse aspecto. A proposta de descentralização progressiva e as mudanças previstas para sua estrutura econômica e de governança precisam ser avaliadas conforme forem efetivamente implementadas, e não apenas com base em planos anunciados.
Esse ponto é fundamental para compreender a Arc de forma equilibrada. Sua proposta não elimina os trade-offs históricos das blockchains. Ela faz escolhas diferentes.
Ao priorizar previsibilidade, finalidade rápida, integração financeira e uma estrutura inicial de validação institucional, a Arc abre mão de parte das características presentes em modelos de participação completamente permissionless. O sucesso de sua proposta dependerá justamente de como conseguirá equilibrar esses elementos à medida que o ecossistema crescer.
A História da Arc e Seu Desenvolvimento
A história da Arc é relativamente recente, mas sua evolução foi rápida. A Circle apresentou a rede ao público em agosto de 2025, lançou a testnet pública pouco mais de dois meses depois e, ao longo de 2026, passou a concentrar seus esforços na preparação de uma infraestrutura capaz de atender a aplicações financeiras em escala institucional.
Essa trajetória também mostra uma característica importante do projeto: a Arc não foi desenvolvida isoladamente pela Circle.
Desde suas primeiras fases públicas, a empresa buscou envolver bancos, gestoras, empresas de pagamentos, provedores de infraestrutura, empresas de tecnologia e participantes do mercado de ativos digitais na construção e nos testes da rede.
O anúncio da Arc em 2025
A Circle apresentou oficialmente a Arc em 12 de agosto de 2025, descrevendo-a como uma blockchain Layer 1 aberta, compatível com a EVM e construída especificamente para aplicações financeiras baseadas em stablecoins.
A proposta surgiu de uma percepção da Circle sobre as limitações encontradas por empresas e instituições financeiras ao utilizar blockchains existentes. A empresa identificou demandas recorrentes relacionadas a previsibilidade de taxas, velocidade de liquidação, privacidade e integração com operações financeiras tradicionais.
A Arc foi apresentada justamente como uma tentativa de incorporar essas características diretamente na infraestrutura da rede.
Desde o anúncio inicial, alguns elementos já apareciam como pilares do projeto: USDC como ativo utilizado para pagar o gás, finalização determinística em subsegundos, um mecanismo nativo de câmbio, privacidade configurável e integração com a plataforma da Circle. A empresa também destacou que a rede seria EVM-compatible, permitindo que desenvolvedores utilizassem ferramentas e conhecimentos já existentes no ecossistema Ethereum.
Outro ponto importante do anúncio foi a intenção de que a Arc fosse mais ampla do que uma simples blockchain para movimentação de USDC. A Circle a apresentou como uma infraestrutura para diferentes formas de dinheiro digital e valor tokenizado, incluindo aplicações relacionadas a pagamentos, mercados de capitais, câmbio e ativos do mundo real.
Naquele momento, entretanto, a Arc ainda estava no início de seu desenvolvimento. A Circle anunciou que a rede passaria primeiro por uma fase de testnet privada, seguida pela abertura de uma testnet pública e, posteriormente, pelo lançamento da mainnet.
Durante esse período inicial, a Circle também incorporou à empresa a equipe responsável pelo desenvolvimento do Malachite, mecanismo de consenso que se tornaria um componente central da arquitetura da Arc. A aquisição da equipe ajudou a trazer para dentro da Circle o conhecimento necessário para desenvolver uma infraestrutura de consenso otimizada para a proposta da nova rede.
O lançamento da testnet pública
O próximo grande passo ocorreu em 28 de outubro de 2025, quando a Circle lançou oficialmente a testnet pública da Arc.
A abertura da rede representou a passagem de uma proposta arquitetônica para uma infraestrutura que poderia ser efetivamente utilizada por desenvolvedores e empresas para construir, testar e avaliar aplicações.
A testnet foi lançada com participação de mais de 100 empresas, abrangendo diferentes segmentos do sistema financeiro e do ecossistema blockchain. A Circle destacou participantes de mercados de capitais, bancos, gestoras, seguradoras, pagamentos, fintechs, infraestrutura e tecnologia.
O objetivo não era apenas testar a capacidade técnica da blockchain. A Circle também buscava avaliar como a Arc poderia ser utilizada em fluxos financeiros reais ou próximos de operações reais.
Entre os casos explorados estavam pagamentos, câmbio, empréstimos e mercados de capitais. Essa abordagem permitiu que a empresa recebesse feedback de organizações com necessidades muito diferentes das encontradas em aplicações comuns de criptomoedas.
A testnet também serviu para testar a integração da Arc com uma variedade de componentes externos. Provedores de carteiras, ferramentas de desenvolvimento, empresas de infraestrutura, custodiantes, soluções de interoperabilidade e participantes do ecossistema de stablecoins passaram a experimentar a rede.
Essa estratégia foi importante porque uma blockchain voltada ao mercado financeiro não depende apenas de seu protocolo central. Para ser útil, ela precisa estar conectada a carteiras, custódia, liquidez, dados, ferramentas de desenvolvimento, outras redes e sistemas utilizados pelas instituições.
Assim, a testnet pública funcionou simultaneamente como ambiente de testes tecnológico e laboratório para construção do ecossistema da Arc.
A participação de instituições financeiras no desenvolvimento
Desde o lançamento da testnet, a Circle procurou envolver instituições financeiras tradicionais no processo de desenvolvimento da Arc.
Entre os participantes anunciados estavam organizações como BlackRock, BNY, Deutsche Bank, Goldman Sachs, HSBC, Invesco, Société Générale, Standard Chartered e State Street, além de empresas de pagamentos, infraestrutura e tecnologia. A participação não significava necessariamente que todas essas instituições já estivessem operando produtos em produção na Arc. Em muitos casos, tratava-se de exploração, testes ou colaboração na definição de possíveis aplicações.
Essa distinção é importante. A presença de uma instituição em uma testnet não significa automaticamente adoção comercial da rede. O objetivo dessa fase é justamente permitir que essas organizações avaliem a tecnologia antes de decidir como, ou se, ela será incorporada às suas operações.
A participação institucional, entretanto, possui grande importância para o desenvolvimento do projeto.
Uma blockchain criada para aplicações financeiras precisa responder a requisitos que podem ser difíceis de identificar apenas a partir da perspectiva de desenvolvedores de software ou usuários de criptomoedas. Questões relacionadas a custódia, liquidação, controle operacional, compliance, auditoria, gestão de risco e movimentação de ativos precisam ser consideradas desde a construção da infraestrutura.
Por isso, a Circle procurou utilizar a participação dessas instituições como uma forma de testar se a arquitetura proposta realmente atende às necessidades do setor.
O processo também ajudou a ampliar o ecossistema da Arc. Além de instituições financeiras, a rede passou a contar com participantes ligados a carteiras, custódia, infraestrutura blockchain, interoperabilidade, oráculos, ferramentas de desenvolvimento e inteligência artificial. A Circle anunciou, por exemplo, a participação de atores como Chainlink, Fireblocks, MetaMask, Uniswap Labs, Wormhole, LayerZero e diversos provedores de infraestrutura durante a fase de testnet.
Essa composição demonstra que a estratégia da Arc não depende apenas da Circle. Para funcionar como uma camada de infraestrutura financeira, a rede precisa formar um ambiente no qual diferentes tipos de empresas e provedores de infraestrutura possam construir e conectar seus serviços.
O crescimento da rede durante a fase de testes
Os resultados obtidos durante a testnet pública deram à Circle dados importantes sobre a capacidade da Arc de operar em escala.
Nos primeiros 90 dias, a rede processou mais de 150 milhões de transações e registrou quase 1,5 milhão de carteiras que realizaram transações, com liquidação média em aproximadamente 0,5 segundo, segundo a própria Circle.
Esses números são relevantes porque mostram que a testnet não permaneceu restrita a pequenos testes técnicos. Houve atividade suficiente para permitir que a Circle e os participantes avaliassem o comportamento da infraestrutura em condições de utilização muito mais intensas.
O crescimento continuou nos meses seguintes. Em fevereiro de 2026, a Circle informou que a Arc já havia ultrapassado 166 milhões de transações acumuladas, apresentava praticamente 100% de disponibilidade e registrava uma média diária de aproximadamente 2,3 milhões de transações considerando os 30 dias anteriores.
É importante interpretar esses números corretamente. Eles representam atividade de testnet, e não volume de transações de uma blockchain de produção já utilizada em larga escala pelo sistema financeiro global. Da mesma forma, os números de desempenho divulgados pela Circle devem ser entendidos dentro das condições específicas de cada teste.
Ainda assim, a atividade da testnet permitiu que a Arc avançasse de uma arquitetura experimental para uma rede com experiência operacional significativa antes do lançamento público.
Durante esse processo, a Circle também passou a trabalhar na evolução da governança e da estrutura de validação. A empresa indicou que a rede deveria caminhar gradualmente para uma participação mais distribuída, envolvendo instituições financeiras, empresas de tecnologia, provedores de infraestrutura e desenvolvedores na operação e governança do ecossistema.
Essa preparação tornou-se especialmente importante à medida que a Arc se aproximava da mainnet.
O lançamento da mainnet pública
Ao longo de 2026, o foco da Circle passou da experimentação para a preparação da Arc para produção.
Em 5 de agosto de 2026, a Circle anunciou oficialmente o grupo de validadores fundadores da rede, formado por Circle e instituições como BlackRock, DTCC, Galaxy, Global Payments, ICE, Mastercard, MoneyGram, SBI Group, Standard Chartered, Sumitomo Corporation e Visa. A empresa informou também que mais de 100 participantes institucionais e do ecossistema já estavam construindo sobre a Arc em sua mainnet privada.
A composição desse grupo ajuda a ilustrar a direção que a Circle pretende dar à rede. Em vez de depender exclusivamente de empresas nativas de blockchain, a infraestrutura inicial também conta com participantes diretamente ligados a mercados financeiros, pagamentos, custódia e gestão de ativos.
A fase de mainnet privada representa, portanto, uma etapa intermediária entre a experimentação aberta da testnet e a disponibilização pública da rede para operações de produção.
A Circle confirmou que a mainnet pública da Arc está prevista para 16 de setembro de 2026. Para esse lançamento, a empresa anunciou uma expansão da plataforma que inclui recursos voltados à privacidade, ferramentas de inteligência artificial para desenvolvimento de aplicações e smart contracts, infraestrutura para emissão e gestão de ativos do mundo real tokenizados e interfaces destinadas a desenvolvedores, usuários e agentes.
O lançamento também representa uma mudança importante na natureza da Arc. A partir da mainnet pública, a questão deixa de ser apenas se a tecnologia funciona em ambiente de testes e passa a ser se ela conseguirá conquistar liquidez, desenvolvedores, aplicações e utilização institucional efetiva.
Essa será provavelmente a fase mais importante da trajetória inicial da rede.
A Arc chega à mainnet depois de pouco mais de um ano desde seu anúncio público, carregando uma proposta ambiciosa: tornar-se uma infraestrutura aberta, mas construída especificamente para as exigências da economia baseada em stablecoins e ativos tokenizados.
O sucesso dessa estratégia dependerá menos da capacidade de simplesmente lançar a blockchain e mais da capacidade de transformar o ecossistema construído durante a testnet em atividade econômica real. É justamente a partir desse ponto que aspectos como consenso, desempenho, taxas, USDC, privacidade, governança e integração com instituições financeiras passam a ser fundamentais para entender como a Arc realmente funciona.
Como Funciona a Arquitetura da Arc?
A Arc foi projetada como uma blockchain Layer 1 compatível com a Ethereum Virtual Machine, mas sua arquitetura combina componentes específicos para atender às necessidades de aplicações financeiras. Em sua implementação atual, a camada de execução utiliza o Reth, cliente Ethereum desenvolvido em Rust, enquanto o consenso é baseado no Malachite, um mecanismo de consenso Byzantine Fault Tolerant.
Essa combinação permite que a Arc mantenha compatibilidade com o ecossistema Ethereum sem simplesmente reproduzir a arquitetura de uma blockchain generalista. A execução de contratos segue o ambiente EVM, enquanto o consenso e outros componentes da infraestrutura são organizados para oferecer finalização rápida, previsibilidade e um modelo de validação adequado à proposta institucional da rede.
Layer 1, execução e compatibilidade com a EVM
A Arc é uma Layer 1, ou seja, possui sua própria infraestrutura de consenso, execução e liquidação. Diferentemente de uma Layer 2, ela não depende de outra blockchain para definir o estado final de suas transações.
Isso permite que a Circle determine características fundamentais da rede de acordo com os objetivos do projeto, incluindo o mecanismo de consenso, o modelo de taxas, a estrutura de validação e a forma como as transações são processadas.
Ao mesmo tempo, a Arc é compatível com a Ethereum Virtual Machine (EVM). Isso significa que contratos inteligentes desenvolvidos para o ambiente Ethereum podem ser adaptados para funcionar na Arc sem que os desenvolvedores precisem aprender uma máquina virtual completamente diferente.
A compatibilidade também se estende ao conjunto de ferramentas utilizado pelos desenvolvedores. A documentação da Arc prevê o uso de linguagens e ferramentas já consolidadas no ecossistema Ethereum, incluindo Solidity, Hardhat, Foundry e bibliotecas como Viem.
Essa escolha reduz uma das principais barreiras para a criação de um novo ecossistema. Em vez de exigir que desenvolvedores abandonem conhecimentos e ferramentas existentes, a Arc procura aproveitar uma infraestrutura de desenvolvimento já madura.
A compatibilidade com a EVM, entretanto, não significa que a Arc seja simplesmente uma cópia do Ethereum. A EVM define principalmente o ambiente de execução dos contratos inteligentes. Outros componentes da blockchain, como consenso, validação, taxas e arquitetura de rede, podem ser implementados de maneira diferente.
Essa separação é importante para entender a proposta da Arc: compatibilidade com o ecossistema Ethereum na execução, combinada com uma arquitetura própria nas demais camadas fundamentais da rede.
Reth e a camada de execução em Rust
Na camada de execução, a Arc utiliza o Reth, um cliente de execução compatível com Ethereum desenvolvido em Rust.
O Reth é responsável por processar as transações, executar contratos inteligentes e manter o estado da blockchain de acordo com as regras da EVM. Em termos simplificados, enquanto o consenso determina qual conjunto de transações deve ser aceito e em que ordem, a camada de execução calcula o resultado dessas transações e atualiza o estado da rede.
A escolha do Reth também conecta a Arc a uma implementação moderna do ecossistema Ethereum. O uso de Rust oferece características relevantes para software de infraestrutura de alto desempenho, como controle de memória, eficiência e capacidade de execução concorrente.
Além disso, utilizar uma implementação de cliente Ethereum como base permite que a Arc mantenha uma interface familiar para desenvolvedores que já trabalham com aplicações EVM.
Isso cria uma combinação interessante. A infraestrutura interna da rede utiliza Rust, enquanto os contratos inteligentes podem ser escritos principalmente em Solidity. Portanto, não existe uma única linguagem responsável por toda a Arc.
Essa distinção também ajuda a conectar a Arc ao debate sobre linguagens de programação em blockchains. A linguagem utilizada para desenvolver o núcleo de uma rede não precisa ser a mesma utilizada pelos desenvolvedores de aplicações que executam sobre ela.
No caso da Arc, o Rust aparece na infraestrutura de execução e em componentes relacionados ao protocolo, enquanto Solidity e as ferramentas EVM permanecem como portas de entrada para a construção de aplicações.
Malachite e o mecanismo de consenso BFT
Se o Reth é responsável pela execução, o Malachite ocupa uma função central na camada de consenso da Arc.
O Malachite é um mecanismo de consenso baseado em Byzantine Fault Tolerance (BFT), projetado para permitir que os participantes responsáveis pela validação cheguem a um acordo sobre o estado da blockchain mesmo diante de determinadas falhas ou comportamentos incorretos de participantes da rede.
Em uma blockchain, consenso é o mecanismo que permite que diferentes nós mantenham uma visão consistente sobre quais transações foram aceitas e qual é a ordem em que elas ocorreram. Sem esse acordo, diferentes participantes poderiam manter versões incompatíveis do estado da rede.
Em um mecanismo BFT, o protocolo é construído para continuar funcionando corretamente mesmo quando uma parcela limitada dos participantes apresenta falhas ou comportamento malicioso. A tolerância exata depende da implementação e das condições estabelecidas pelo protocolo.
Na Arc, essa arquitetura de consenso está diretamente relacionada ao modelo de validação permissionado. Como o conjunto de participantes responsáveis pelo consenso é conhecido e controlado, o protocolo pode operar em um ambiente diferente daquele de blockchains nas quais qualquer participante pode tentar ingressar no conjunto de validadores.
Essa característica ajuda a explicar por que a Arc consegue buscar finalização muito rápida. O consenso não precisa resolver o mesmo problema de coordenação encontrado em uma rede pública com um número potencialmente ilimitado de participantes desconhecidos.
O Malachite também possui uma importância histórica para a própria criação da Arc. A Circle incorporou a equipe responsável pelo desenvolvimento do protocolo ao anunciar a nova blockchain, trazendo para dentro da empresa o conhecimento utilizado na construção de seu mecanismo de consenso.
Assim, o Malachite não é apenas um componente técnico isolado. Ele faz parte da estratégia da Circle de construir uma Layer 1 cuja infraestrutura de consenso seja adequada a operações financeiras que valorizam rapidez e previsibilidade.
Finalização determinística em subsegundos
Uma das características mais destacadas da Arc é sua finalização determinística em subsegundos.
Para entender sua importância, é necessário diferenciar confirmação de finalização.
Uma transação pode ser incluída em um bloco e receber confirmações posteriores, mas isso não significa necessariamente que o estado correspondente seja considerado irreversível pelo protocolo naquele momento. Em redes com determinados modelos de consenso, existe uma probabilidade de reorganização ou necessidade de aguardar confirmações adicionais antes de considerar uma operação definitivamente liquidada.
Na Arc, o mecanismo de consenso BFT permite que a rede alcance uma decisão determinística sobre o estado. Uma vez atingidas as condições necessárias do protocolo, os participantes chegam a um acordo final sobre aquele bloco.
A velocidade é particularmente importante para aplicações financeiras.
Em uma transferência internacional, por exemplo, não basta que uma instituição saiba que uma transação provavelmente será confirmada. Quanto menor e mais previsível for o intervalo entre a execução e a finalização, mais facilmente o processo pode ser incorporado a sistemas de liquidação automatizados.
A Circle informa que a Arc foi projetada para atingir finalização em subsegundos. Durante os testes, a rede apresentou tempos próximos de 0,5 segundo em determinadas condições.
Os benchmarks oficiais também registram finalização inferior a 350 milissegundos em condições específicas de teste, utilizando uma configuração com 20 validadores distribuídos globalmente. Esses números devem ser entendidos como benchmarks de desempenho, e não como uma garantia de que toda transação em qualquer circunstância será finalizada exatamente nesse intervalo.
A diferença é importante porque latência depende de fatores como distribuição geográfica dos validadores, condições da rede, carga, configuração de infraestrutura e parâmetros do protocolo.
Ainda assim, a capacidade de oferecer finalização determinística em uma escala inferior a um segundo é um dos principais elementos que tornam a Arc interessante para aplicações que precisam de liquidação rápida e previsível.
Como funciona o conjunto de validadores permissionados
A validação da Arc possui uma característica que a diferencia de muitas Layer 1 públicas: a participação como validador é permissionada.
Isso significa que não basta executar o software da blockchain para automaticamente ingressar no conjunto responsável pela produção e validação de blocos. Os participantes precisam ser autorizados a fazer parte dessa camada da rede.
Na fase inicial da Arc, esse modelo envolve um conjunto identificado de instituições e organizações que operam os validadores. Entre os validadores fundadores anunciados pela Circle estão empresas e instituições como BlackRock, DTCC, Galaxy, Global Payments, ICE, Mastercard, MoneyGram, SBI Group, Standard Chartered, Sumitomo Corporation e Visa, além da própria Circle.
A escolha desse modelo está diretamente relacionada ao posicionamento institucional da Arc.
Para instituições financeiras, saber quais entidades participam da infraestrutura de consenso pode facilitar determinados processos de governança, gestão de risco e responsabilidade operacional. Também permite que a rede seja estruturada em torno de participantes identificáveis, em vez de depender exclusivamente de um conjunto aberto de validadores anônimos.
Por outro lado, existe um trade-off evidente.
Uma rede com validação permissionada possui um grau de abertura menor na camada de consenso do que uma blockchain na qual qualquer participante que cumpra os requisitos técnicos e econômicos pode se tornar validador. A concentração da validação também cria questões relacionadas à descentralização, independência dos participantes e resistência a diferentes tipos de pressão externa.
Por isso, o modelo de validadores da Arc deve ser analisado dentro de sua proposta específica, e não simplesmente classificado como “melhor” ou “pior” do que uma rede permissionless.
A própria Circle prevê uma evolução progressiva do modelo de governança e validação. A arquitetura inicial é permissionada, mas a empresa indica uma trajetória de maior participação econômica e descentralização ao longo do desenvolvimento da rede.
A diferença entre acesso permissionless e validação permissionada
A distinção entre esses dois conceitos é fundamental para compreender a Arc corretamente.
Permissionless significa que não existe uma autorização prévia para uma determinada atividade dentro do escopo em questão. Permissioned, por outro lado, significa que o acesso a essa função depende de autorização.
Na Arc, essas características coexistem em diferentes níveis.
O acesso de desenvolvedores é permissionless. Em princípio, desenvolvedores podem criar contratos inteligentes e aplicações compatíveis com a EVM sem precisar obter autorização da Circle para participar do ambiente de desenvolvimento da mesma forma que um validador precisa ser autorizado para participar do consenso.
Já a participação como validador é permissionada. A produção e validação dos blocos ficam inicialmente restritas ao conjunto de entidades autorizadas.
Essa arquitetura permite que a Arc seja aberta na camada de aplicações sem necessariamente ser aberta na camada de consenso.
Um exemplo ajuda a visualizar a diferença. Um desenvolvedor pode criar uma aplicação financeira baseada em contratos inteligentes e disponibilizá-la na Arc sem precisar operar um dos validadores da rede. A aplicação utiliza a infraestrutura de consenso existente, enquanto os validadores são responsáveis por chegar ao acordo sobre o estado da blockchain.
Esse desenho procura combinar duas necessidades que frequentemente entram em tensão no desenvolvimento de infraestrutura financeira: abertura para construção e controle sobre a camada responsável pela segurança e validação da rede.
O resultado é uma blockchain que não se encaixa perfeitamente na classificação simplista de “pública” ou “privada”. A Arc possui uma infraestrutura blockchain pública e acesso permissionless para desenvolvimento, mas utiliza uma camada de validação permissionada em sua configuração inicial.
Essa combinação é central para compreender a proposta da Circle. A empresa não está tentando reproduzir integralmente o modelo de uma blockchain permissionless, como Ethereum ou Bitcoin, mas também não está construindo simplesmente uma rede privada fechada para uso exclusivo de instituições.
A Arc ocupa uma posição intermediária: uma Layer 1 aberta para aplicações, mas com controle inicial sobre quem participa diretamente do consenso.
Esse é um dos principais trade-offs arquitetônicos do projeto e será importante acompanhar como ele evoluirá à medida que a rede avançar em direção aos objetivos de descentralização anunciados pela Circle.
Desempenho e Modelo de Taxas da Arc
O desempenho de uma blockchain não pode ser resumido a um único número de transações por segundo. Capacidade de processamento, velocidade de finalização e comportamento das taxas são características diferentes, embora estejam diretamente relacionadas.
No caso da Arc, esses elementos foram projetados para atender a aplicações que precisam processar operações financeiras rapidamente e, ao mesmo tempo, ter maior previsibilidade sobre o custo de utilização da rede.
A arquitetura combina consenso BFT, execução compatível com a EVM e um modelo de taxas denominado em USDC. A Circle também divulga benchmarks que demonstram a capacidade da infraestrutura sob determinadas configurações de teste. Esses números são importantes para compreender o potencial técnico da rede, mas precisam ser analisados considerando as condições em que foram obtidos.
TPS, throughput e latência
TPS (Transactions Per Second) representa a quantidade de transações que uma blockchain consegue processar por segundo. É uma das métricas mais conhecidas para comparar o desempenho entre redes, mas não deve ser analisada isoladamente.
O throughput possui um significado mais amplo. Ele representa a capacidade efetiva de processamento de dados ou operações de uma infraestrutura durante determinado período. Em uma blockchain, pode envolver não apenas a quantidade de transações, mas também o volume de dados e de computação associado a essas operações.
Já a latência mede o tempo necessário para que uma operação percorra determinada etapa do processo. No contexto de uma blockchain, pode significar o intervalo entre o envio de uma transação e sua inclusão em um bloco, ou, dependendo da métrica utilizada, o tempo até que ela seja considerada finalizada.
Essas diferenças são importantes na Arc porque a proposta da rede não está baseada exclusivamente em alcançar um número elevado de TPS. Para uma aplicação financeira, processar milhares de transações por segundo perde parte de seu valor se as operações demorarem muito para atingir uma finalização definitiva ou se os custos variarem de maneira imprevisível.
A Arc procura combinar essas dimensões.
A rede foi projetada para oferecer alto throughput, baixa latência e finalização determinística em subsegundos. A Circle divulga benchmarks superiores a 3.000 TPS em determinadas configurações, enquanto o tempo de finalização pode ficar abaixo de um segundo em condições apropriadas.
Essas métricas representam objetivos complementares: o throughput determina quanto trabalho a rede consegue processar, enquanto a latência e a finalização determinam com que rapidez os participantes conseguem obter uma resposta definitiva sobre suas operações.
Para pagamentos, câmbio e liquidação financeira, essa combinação pode ser mais relevante do que simplesmente maximizar o TPS.
Os benchmarks de desempenho da rede
A Circle divulga diferentes benchmarks para demonstrar a capacidade de processamento da Arc.
Em uma configuração com 20 validadores distribuídos globalmente, a documentação oficial registra capacidade superior a 3.000 transações por segundo, acompanhada de finalização inferior a 350 milissegundos nas condições utilizadas para o benchmark.
Em outra configuração, utilizando apenas quatro validadores, os testes registraram mais de 10.000 TPS.
Esses resultados são interessantes, pois demonstram justamente por que benchmarks precisam ser acompanhados de suas condições de teste. Uma rede pode apresentar resultados diferentes conforme o número de validadores, sua distribuição geográfica, o hardware utilizado, as características das transações e outros parâmetros da infraestrutura.
Por isso, seria incorreto transformar esses números em uma afirmação como “a Arc processa 10.000 TPS” sem especificar o contexto.
O benchmark de 10.000 TPS demonstra uma capacidade de processamento observada em uma determinada configuração. Já o resultado de mais de 3.000 TPS com 20 validadores globalmente distribuídos é particularmente interessante para analisar o cenário de uma rede com participantes geograficamente dispersos, mais próximo daquilo que se espera de uma infraestrutura financeira internacional.
A Circle também informou que a testnet pública processou mais de 150 milhões de transações nos primeiros 90 dias, com liquidação média próxima de meio segundo. Esses dados representam atividade efetivamente observada durante a fase de testes e são diferentes dos benchmarks controlados de capacidade máxima.
Essa distinção entre atividade real da testnet e benchmark de capacidade é importante para avaliar a Arc com rigor.
Os benchmarks indicam o potencial técnico da arquitetura. A atividade da testnet demonstra como a infraestrutura se comportou sob utilização efetiva. Já a capacidade da mainnet em condições reais dependerá da carga, da configuração dos validadores, do crescimento do ecossistema e dos parâmetros que forem adotados na operação de produção.
USDC como ativo utilizado para pagar o gás
Uma das características mais particulares da Arc é a utilização do USDC para pagamento das taxas de transação.
Em muitas blockchains, existe um token nativo utilizado para pagar o gás. O usuário precisa possuir esse ativo para executar uma transação, mesmo que o próprio objetivo da operação seja movimentar outro token.
Esse modelo funciona bem em diversos contextos, mas cria uma camada adicional de complexidade para aplicações financeiras. Uma instituição que trabalha principalmente com dólares tokenizados, por exemplo, precisa adquirir, custodiar e contabilizar um ativo adicional apenas para pagar as taxas de infraestrutura.
Na Arc, o USDC ocupa essa função.
Quando uma aplicação executa uma operação que exige recursos da rede, a taxa correspondente é cobrada em USDC. Dessa maneira, o ativo utilizado para liquidar uma operação financeira pode também ser utilizado para pagar pela infraestrutura necessária à sua execução.
A escolha possui uma consequência econômica importante: o custo do uso da blockchain passa a ser denominado em uma unidade associada ao dólar, em vez de depender diretamente do preço de um token nativo volátil.
Isso não significa que todas as operações financeiras na Arc necessariamente utilizem USDC como ativo econômico principal. Outros ativos podem circular na rede e contratos inteligentes podem interagir com diferentes tokens. A característica específica é que o pagamento do gás da própria blockchain é denominado em USDC.
Esse desenho também ajuda a explicar a relação entre a Arc e a estratégia mais ampla da Circle. A empresa não está simplesmente colocando o USDC em uma nova rede; está criando uma infraestrutura na qual o próprio stablecoin passa a desempenhar uma função estrutural dentro da economia da blockchain.
O USDC, portanto, possui uma dupla importância na Arc: é um ativo digital utilizado por aplicações financeiras e também o ativo utilizado para remunerar a infraestrutura de execução das transações.
Como funciona o modelo de taxas da Arc
O sistema de taxas da Arc foi projetado para combinar a utilização do USDC com um mecanismo de precificação inspirado no modelo EIP-1559 do ecossistema Ethereum.
Em termos simplificados, uma transação consome uma determinada quantidade de recursos computacionais da rede, expressos em gas. Quanto maior a complexidade da operação, maior tende a ser a quantidade de gas necessária para executá-la.
A taxa final depende, portanto, de dois componentes principais: a quantidade de gas consumida pela operação e o preço atribuído a esse recurso.
A Arc utiliza um mecanismo de precificação dinâmica, acompanhado por suavização baseada em média móvel exponencial (EWMA). O objetivo é evitar que alterações momentâneas na demanda provoquem oscilações excessivamente abruptas no preço do gas.
Essa característica é particularmente relevante quando pensamos em aplicações financeiras que precisam operar continuamente.
Imagine uma aplicação de pagamentos que processa milhares de operações ao longo do dia. Se o custo de cada transação variar drasticamente em intervalos muito curtos, torna-se mais difícil estimar despesas operacionais, definir preços e calcular margens.
A suavização procura tornar a evolução do preço do gas mais gradual, sem eliminar completamente a relação entre demanda e custo.
A documentação da Arc também indica um objetivo de aproximadamente US$ 0,01 por transação em condições normais de utilização, embora parâmetros econômicos e operacionais possam ser ajustados durante a evolução da rede.
Esse valor deve ser interpretado como uma referência de custo planejada ou observada sob determinadas condições, e não como uma tarifa fixa garantida para qualquer transação.
Além disso, o consumo de gas não é necessariamente igual para todas as operações. Uma simples transferência de tokens e a execução de um contrato inteligente complexo exigem quantidades diferentes de recursos computacionais.
Assim, o custo efetivo de uma operação depende tanto do preço do gas naquele momento quanto da quantidade de recursos consumidos pela transação.
A Arc também foi projetada com uma capacidade elevada de processamento de gas, permitindo que o mecanismo de taxas acompanhe um volume significativo de operações sem que o sistema precise depender exclusivamente de aumentos agressivos de preço para administrar a demanda.
O resultado pretendido é uma combinação de custo baixo, cobrança em USDC e maior previsibilidade, características particularmente interessantes para aplicações que precisam incorporar blockchain diretamente a processos financeiros.
Por que taxas previsíveis são importantes para aplicações financeiras
A previsibilidade de custos possui uma importância diferente quando uma blockchain é utilizada como infraestrutura financeira.
Para um usuário individual realizando uma transferência ocasional, uma variação de alguns centavos na taxa pode ter pouca importância. Para uma instituição que processa milhões de operações, entretanto, pequenas diferenças multiplicadas por um grande volume podem representar uma despesa operacional significativa.
Além disso, empresas financeiras precisam projetar custos antecipadamente. Sistemas de pagamentos, plataformas de negociação, serviços de custódia e aplicações de tesouraria precisam saber quanto custa executar suas operações para definir preços, calcular margens e realizar planejamento financeiro.
Nesse contexto, uma taxa denominada em USDC oferece uma vantagem de previsibilidade monetária em relação a um token cujo preço de mercado pode variar significativamente.
O mecanismo de suavização das taxas busca complementar essa característica, reduzindo oscilações bruscas relacionadas a mudanças momentâneas na demanda.
Isso não significa que a Arc elimine completamente a possibilidade de variação nas taxas. A utilização da rede continua dependendo de recursos computacionais e da demanda existente. Uma blockchain também precisa possuir mecanismos capazes de reagir a períodos de congestionamento.
A diferença está no objetivo do desenho econômico: a taxa deve funcionar como um custo operacional previsível da infraestrutura, e não como uma exposição adicional ao preço de um ativo especulativo utilizado exclusivamente para pagar o gás.
Essa lógica é especialmente coerente com o público que a Arc pretende alcançar.
Uma instituição financeira que utiliza a rede para pagamentos internacionais, liquidação de ativos ou operações de tesouraria já pode manter exposição ao dólar por meio do USDC. Utilizar o mesmo ativo para pagar pela infraestrutura simplifica o modelo econômico e reduz a quantidade de componentes diferentes que precisam ser administrados.
Por isso, o modelo de taxas da Arc não deve ser visto apenas como uma escolha técnica. Ele faz parte da própria proposta da rede.
USDC como gás, custos baixos, precificação dinâmica e busca por maior previsibilidade formam um único desenho econômico, construído para aproximar a experiência de utilização de uma blockchain das necessidades de sistemas financeiros que precisam operar de maneira contínua, mensurável e automatizada.
O Papel do USDC na Arc
O USDC ocupa uma posição central na arquitetura econômica da Arc. Mais do que ser apenas um dos ativos que podem circular pela rede, ele foi escolhido pela Circle como o ativo utilizado para pagar as taxas de transação e, consequentemente, como uma das principais unidades econômicas da infraestrutura.
Essa escolha está diretamente relacionada ao objetivo da Arc de funcionar como uma camada para pagamentos, liquidação, câmbio e movimentação de ativos financeiros. Em vez de criar uma economia baseada em um token nativo cuja principal função seria pagar pelo uso da blockchain, a Circle decidiu utilizar uma stablecoin já integrada ao seu ecossistema financeiro.
Ao mesmo tempo, a Arc não foi projetada para limitar a rede ao USDC. A proposta é permitir que diferentes formas de dinheiro digital e valor tokenizado coexistam, enquanto o USDC desempenha um papel importante como meio de pagamento das taxas e como instrumento de liquidação.
O USDC como unidade econômica da infraestrutura
A utilização do USDC como gás faz com que o stablecoin esteja presente em uma das camadas econômicas fundamentais da Arc.
Toda blockchain precisa de algum mecanismo para cobrar pelo uso de seus recursos. Processar transações, executar contratos inteligentes e armazenar alterações no estado da rede consome capacidade computacional. As taxas funcionam, entre outras coisas, como um mecanismo para remunerar ou regular a utilização desses recursos.
Na Arc, essa economia é denominada em USDC.
Isso cria uma experiência particularmente interessante para aplicações financeiras. Em vez de pensar em uma operação como “transferir dólares digitais e pagar uma pequena quantidade de outro token pela utilização da blockchain”, uma aplicação pode trabalhar dentro de uma unidade econômica mais uniforme.
Uma plataforma de pagamentos, por exemplo, pode manter USDC para liquidar transferências e utilizar uma parcela desse mesmo saldo para pagar as taxas da rede. Uma aplicação de tesouraria pode contabilizar tanto seus fluxos de liquidação quanto seus custos de infraestrutura em uma unidade relacionada ao dólar.
Essa integração reduz uma camada de complexidade operacional.
Também existe uma consequência importante para a arquitetura econômica da rede. O token ARC, apesar de possuir funções relacionadas à segurança e à governança futura do ecossistema, não é necessário para que uma aplicação simplesmente pague o gás de uma transação. A função operacional cotidiana das taxas está associada ao USDC.
Essa separação permite que os dois ativos tenham funções diferentes dentro do ecossistema: USDC como principal unidade operacional de liquidação e pagamento de taxas; ARC como ativo relacionado à coordenação econômica, segurança e evolução da rede.
Essa distinção será especialmente importante quando analisarmos o token ARC em detalhes mais adiante.
Stablecoins e liquidação on-chain
A importância do USDC na Arc também está relacionada a uma transformação mais ampla no sistema financeiro: a utilização de stablecoins como instrumentos de liquidação.
Uma stablecoin pode representar digitalmente uma unidade monetária e ser transferida por uma rede blockchain sem depender necessariamente dos mesmos processos de liquidação utilizados por sistemas financeiros tradicionais.
Isso abre possibilidades para pagamentos internacionais, movimentação de capital entre instituições e liquidação de ativos tokenizados.
Imagine, por exemplo, uma operação na qual um ativo financeiro tokenizado seja transferido entre duas instituições. Em um ambiente tradicional, a movimentação do ativo e a transferência do dinheiro utilizado para liquidá-lo podem ocorrer em sistemas diferentes, com horários, intermediários e processos distintos.
Em uma infraestrutura on-chain, é possível programar essas operações para que diferentes componentes sejam coordenados por contratos inteligentes.
O USDC pode funcionar como um dos meios utilizados para realizar essa liquidação. Um contrato pode, por exemplo, condicionar a transferência de um ativo à disponibilidade do valor correspondente em USDC, criando uma relação programável entre entrega e pagamento.
Esse modelo é particularmente interessante para mercados que funcionam internacionalmente e continuamente. Blockchains não possuem os mesmos horários de funcionamento de sistemas financeiros tradicionais, permitindo que operações sejam processadas de forma automatizada e 24 horas por dia.
A Arc foi concebida justamente para explorar esse tipo de utilização.
É importante, porém, não confundir capacidade tecnológica com adoção financeira. O fato de uma blockchain permitir liquidação on-chain não significa que instituições automaticamente substituirão seus sistemas tradicionais por ela. Questões regulatórias, custódia, gestão de risco, liquidez, integração com sistemas legados e confiança institucional continuam sendo fatores fundamentais.
A proposta da Arc é oferecer uma infraestrutura sobre a qual esse tipo de operação possa ser construído.
Nesse contexto, o USDC funciona como uma espécie de ponte entre o dinheiro digital e a infraestrutura blockchain. Ele pode representar valor monetário dentro da rede enquanto participa diretamente dos mecanismos econômicos que sustentam sua utilização.
Outros ativos digitais que podem circular no ecossistema
Apesar da importância do USDC, a Arc não foi concebida como uma rede exclusivamente dedicada a esse ativo.
A compatibilidade com a EVM permite que desenvolvedores criem contratos inteligentes capazes de interagir com diferentes tokens e representações digitais de valor. Dessa forma, a infraestrutura pode acomodar um ecossistema mais amplo do que uma única stablecoin.
Isso é importante porque as finanças institucionais utilizam diferentes tipos de ativos.
Uma aplicação pode precisar de uma stablecoin denominada em dólar, enquanto outra pode trabalhar com uma representação digital de euro. Um protocolo pode utilizar um ativo tokenizado que represente um fundo ou título. Outra aplicação pode precisar movimentar ativos digitais utilizados como garantia ou liquidação.
A Arc busca funcionar como uma infraestrutura na qual esses diferentes ativos possam interagir.
Entre os ativos relacionados ao ecossistema da Circle estão o EURC, stablecoin denominado em euro; o USYC, produto tokenizado associado a títulos do Tesouro americano de curto prazo; e outros ativos digitais desenvolvidos pela própria Circle ou por terceiros.
A presença desses ativos reforça uma característica importante da estratégia da rede: o objetivo não é criar apenas uma infraestrutura para transferências de USDC, mas uma camada capaz de conectar dinheiro digital, ativos tokenizados e aplicações financeiras programáveis.
Essa abertura também é necessária para que a Arc possa desenvolver mercados mais complexos. Uma blockchain utilizada por instituições financeiras precisa permitir que diferentes ativos sejam utilizados como instrumentos de pagamento, garantia, investimento ou liquidação.
Nesse cenário, o USDC pode continuar desempenhando uma função central sem precisar ser o único ativo econômico existente na rede.
USDC, EURC, USYC e a expansão para ativos tokenizados
A estratégia da Circle para a Arc está ligada a um ecossistema mais amplo de ativos digitais.
O USDC representa o componente denominado em dólar e ocupa uma posição especialmente importante por ser o ativo utilizado para pagar o gás da rede. O EURC, por sua vez, permite representar digitalmente o euro e pode ampliar as possibilidades de pagamentos e operações de câmbio envolvendo diferentes moedas.
Já o USYC representa uma categoria diferente. Em vez de funcionar como uma stablecoin tradicional, ele está relacionado à tokenização de instrumentos financeiros de curto prazo associados ao mercado de títulos do Tesouro americano.
Essa diferença é importante porque demonstra como o conceito de dinheiro digital pode coexistir com o de ativo financeiro tokenizado.
Uma economia on-chain não precisa ser formada apenas por moedas digitais. Ela também pode incluir representações programáveis de fundos, títulos, créditos e outros instrumentos financeiros.
É nesse ponto que a proposta da Arc se torna mais abrangente do que simplesmente criar uma rede especializada em stablecoins.
Imagine um ambiente no qual uma instituição possa manter USDC para liquidação, utilizar EURC em operações denominadas em euro e interagir com ativos tokenizados que representem instrumentos financeiros. Contratos inteligentes poderiam coordenar essas posições, enquanto mecanismos de câmbio e infraestrutura de dados auxiliariam na execução das operações.
Essa é a direção para a qual a Circle pretende levar a Arc: uma infraestrutura na qual dinheiro digital e ativos tokenizados possam compartilhar a mesma camada programável de liquidação.
A evolução desse modelo, entretanto, dependerá da disponibilidade efetiva dos diferentes ativos, da integração de emissores e provedores de infraestrutura e, principalmente, da adoção por instituições financeiras.
Por isso, é importante distinguir a visão de longo prazo daquilo que já está disponível na rede. Alguns componentes do ecossistema da Circle já existem e podem ser integrados à Arc, enquanto outras funcionalidades e determinados ativos possuem disponibilização prevista ou em evolução conforme a rede avança para a mainnet pública.
A escolha do USDC como gás, portanto, deve ser entendida como parte de uma estratégia maior. A Circle está tentando construir uma infraestrutura na qual sua principal stablecoin funcione como meio de pagamento das taxas, instrumento de liquidação e elemento central de uma economia on-chain, ao mesmo tempo em que a Arc permanece aberta à circulação e interação com outras formas de valor digital.
É essa combinação que permite que a rede seja apresentada não apenas como uma blockchain para USDC, mas como uma infraestrutura potencial para uma economia financeira cada vez mais tokenizada.
O Sistema de Câmbio Nativo da Arc
O câmbio, ou foreign exchange (FX), é uma das funções mais importantes do sistema financeiro internacional. Empresas, bancos, gestoras e outras instituições precisam converter recursos entre diferentes moedas constantemente para realizar pagamentos, administrar tesouraria, liquidar operações e movimentar capital entre diferentes jurisdições.
Para uma blockchain voltada especificamente ao mercado financeiro, portanto, oferecer apenas uma infraestrutura eficiente para transferências de uma única moeda não é suficiente. Uma economia global precisa lidar com múltiplas unidades monetárias.
A Arc foi projetada levando essa realidade em consideração. Entre seus componentes está um mecanismo nativo de câmbio, concebido para permitir que diferentes stablecoins e ativos denominados em moedas distintas possam participar de operações de conversão e liquidação dentro da infraestrutura on-chain.
Essa característica conecta diretamente três elementos da proposta da Circle: stablecoins, câmbio e pagamentos globais.
Por que o FX é importante para uma blockchain institucional
O mercado de câmbio movimenta valores extremamente elevados todos os dias e está presente em praticamente qualquer atividade financeira internacional.
Uma empresa brasileira que paga um fornecedor europeu, uma multinacional que administra caixa em vários países ou uma instituição financeira que liquida uma operação internacional precisa lidar com diferentes moedas e, consequentemente, com processos de conversão.
No sistema tradicional, essas operações envolvem bancos, provedores de liquidez, sistemas de pagamento, correspondentes bancários e diferentes camadas de infraestrutura. A conversão da moeda e a liquidação do pagamento também podem ocorrer em etapas distintas.
Para uma blockchain que pretende funcionar como infraestrutura financeira global, essa separação representa uma oportunidade de integração.
Se diferentes moedas estiverem representadas por ativos digitais, uma aplicação pode programar a conversão e a transferência desses ativos dentro de um mesmo ambiente blockchain. Isso potencialmente reduz o número de etapas necessárias para concluir determinadas operações e permite que contratos inteligentes coordenem automaticamente diferentes partes da transação.
A importância do FX para a Arc também está relacionada ao papel das stablecoins.
Uma stablecoin denominada em dólar, como o USDC, e uma stablecoin denominada em euro, como o EURC, representam unidades monetárias diferentes. Se ambas puderem ser utilizadas por aplicações financeiras na mesma infraestrutura, surge naturalmente a necessidade de mecanismos eficientes para converter uma em outra.
Esse mecanismo não precisa necessariamente ser um mercado de câmbio tradicional reproduzido literalmente dentro da blockchain. Ele pode ser formado por contratos inteligentes, pools de liquidez, provedores de liquidez e regras específicas de execução.
A diferença fundamental é que a infraestrutura blockchain pode tornar o processo programável e composável. Uma aplicação pode incorporar a conversão cambial diretamente ao fluxo de uma operação maior.
Por exemplo, um pagamento internacional poderia envolver simultaneamente a conversão de uma moeda digital em outra e a transferência do valor convertido para o destinatário. Em vez de tratar câmbio e pagamento como processos completamente separados, ambos podem ser coordenados por uma aplicação on-chain.
Essa possibilidade é particularmente relevante para a visão institucional da Arc porque empresas globais não movimentam apenas dólares. Uma infraestrutura financeira internacional precisa ser capaz de lidar com diferentes moedas e diferentes mercados.
Como funciona o mecanismo nativo de câmbio
A Circle anunciou desde a apresentação inicial da Arc a intenção de incorporar um FX engine, ou mecanismo de câmbio, diretamente à infraestrutura da blockchain.
A ideia fundamental é fornecer uma camada especializada para operações de conversão entre ativos monetários digitais, reduzindo a necessidade de cada aplicação desenvolver isoladamente sua própria infraestrutura de câmbio.
Em termos simplificados, uma operação cambial envolve três elementos fundamentais: o ativo que está sendo entregue, o ativo que será recebido e a liquidez disponível para realizar a conversão.
Considere uma aplicação que precisa converter USDC em EURC.
O USDC representa o valor denominado em dólar, enquanto o EURC representa o valor denominado em euro. Para que a conversão aconteça, é necessário existir liquidez suficiente para que uma contraparte ou mecanismo de mercado forneça EURC em troca do USDC.
O mecanismo de FX pode coordenar essa operação e permitir que a aplicação utilize a conversão como parte de um fluxo financeiro maior.
A grande diferença está na integração com a própria blockchain. Em vez de depender exclusivamente de uma infraestrutura cambial externa, a Arc pretende disponibilizar componentes que permitam que operações de conversão sejam incorporadas diretamente a aplicações e contratos inteligentes.
Isso abre espaço para operações mais complexas.
Uma aplicação poderia, por exemplo, receber USDC, realizar uma conversão para EURC e posteriormente utilizar o EURC para efetuar um pagamento. Outra poderia utilizar diferentes moedas digitais para administrar posições de tesouraria. Um contrato inteligente poderia estabelecer condições para executar determinada conversão antes de concluir uma operação.
Entretanto, é importante não interpretar “FX nativo” como sinônimo de câmbio sem intermediários em qualquer circunstância.
A execução de uma conversão ainda depende de liquidez, participantes de mercado, preços e infraestrutura que sustentem os ativos envolvidos. A blockchain pode fornecer a camada tecnológica para coordenar a operação, mas não elimina magicamente a necessidade de existência de mercado e liquidez.
Outro ponto importante é que o mecanismo de FX da Arc deve ser analisado como uma infraestrutura em evolução. A Circle anunciou essa capacidade como parte da arquitetura da rede, mas os recursos efetivamente disponíveis e seu grau de integração dependem do estágio de desenvolvimento e dos serviços disponibilizados no ecossistema.
O objetivo, porém, é claro: transformar o câmbio em uma função que possa ser incorporada diretamente às aplicações financeiras on-chain, em vez de tratá-lo sempre como um processo externo à blockchain.
A relação entre stablecoins, FX e pagamentos globais
A conexão entre stablecoins e FX ajuda a explicar por que o câmbio ocupa uma posição tão importante na proposta da Arc.
O objetivo de uma rede financeira global não pode ser simplesmente permitir que uma pessoa envie dólares digitais de um endereço para outro. Empresas e instituições que operam internacionalmente precisam movimentar recursos entre diferentes moedas.
É nesse ponto que stablecoins podem funcionar como uma nova camada de infraestrutura monetária.
A vantagem não está apenas na velocidade. A programação permite estabelecer regras para que uma operação seja executada somente quando determinadas condições forem satisfeitas. Isso pode ser útil em pagamentos corporativos, gestão de tesouraria, comércio internacional e outras operações que envolvem múltiplas etapas.
Existe uma vantagem também na camada de disponibilidade.
O sistema financeiro tradicional possui diferentes horários de funcionamento, feriados nacionais e períodos de liquidação que variam entre mercados. Uma infraestrutura blockchain pode operar continuamente, permitindo que determinadas operações digitais sejam processadas fora dos horários tradicionais.
Isso não significa que todos os mercados cambiais tradicionais possam simplesmente ser substituídos por uma blockchain. O preço dos ativos, a liquidez e as relações regulatórias continuam dependendo de participantes e instituições que existem fora da própria rede.
A Arc busca, portanto, atuar como uma camada tecnológica de liquidação e programação, conectando diferentes formas de dinheiro digital.
Essa abordagem também se encaixa na visão mais ampla da Circle para o mercado de stablecoins. Se stablecoins passarem de instrumentos utilizados principalmente dentro do ecossistema cripto para uma infraestrutura de pagamentos e liquidação internacional, mecanismos eficientes de conversão entre moedas se tornam indispensáveis.
Nesse cenário, o FX deixa de ser apenas uma função complementar da blockchain e passa a ser parte da própria infraestrutura financeira.
A combinação entre USDC, EURC, mecanismos de FX e liquidação on-chain permite imaginar um sistema no qual pagamentos internacionais possam ser executados de maneira mais direta e automatizada, enquanto aplicações financeiras utilizam contratos inteligentes para coordenar as diferentes etapas da operação.
É justamente essa integração que dá ao sistema de câmbio da Arc importância estratégica. A Circle não está apenas tentando criar uma blockchain rápida para transferir stablecoins; está tentando construir uma infraestrutura na qual diferentes moedas digitais possam ser convertidas e liquidadas dentro de fluxos financeiros programáveis.
Privacidade e Transparência na Arc
A transparência é uma das características mais importantes das blockchains públicas. Transações registradas em uma rede aberta podem ser verificadas por qualquer participante, permitindo auditar movimentações sem depender exclusivamente de uma autoridade central.
Para aplicações financeiras institucionais, porém, essa mesma transparência pode se transformar em uma limitação.
Empresas e instituições financeiras frequentemente precisam comprovar que determinadas operações aconteceram sem necessariamente revelar ao mercado inteiro informações como valores transferidos, saldos ou detalhes comerciais. Uma empresa pode, por exemplo, precisar demonstrar uma transação a um auditor ou autoridade regulatória sem tornar o valor da operação publicamente visível para qualquer observador.
A Arc foi projetada para lidar com esse conflito por meio de um modelo de privacidade opt-in e configurável. Em vez de tornar todas as operações privadas ou manter todas as informações permanentemente expostas, a proposta é permitir que aplicações e participantes escolham quando determinados dados devem ser protegidos.
Essa abordagem procura preservar uma das principais vantagens das blockchains, a verificabilidade, enquanto adiciona uma camada de confidencialidade necessária para determinados fluxos financeiros.
O problema da transparência financeira em blockchains públicas
Em uma blockchain pública convencional, a transparência faz parte do próprio modelo de funcionamento.
Endereços, transações e valores movimentados podem ser registrados de maneira verificável na rede. Essa característica é extremamente útil para auditoria, análise de atividade e criação de sistemas financeiros abertos.
Entretanto, transparência absoluta não é necessariamente compatível com todas as operações realizadas por empresas e instituições.
Imagine uma empresa que mantém uma determinada quantidade de stablecoins para administrar sua tesouraria. Se todos os seus saldos e movimentações forem permanentemente públicos, concorrentes poderão acompanhar suas operações financeiras e eventualmente identificar informações estratégicas.
O problema se torna ainda mais evidente em mercados de capitais.
Uma instituição que esteja movimentando grandes posições, oferecendo garantias ou realizando operações de liquidação pode precisar provar a existência e a validade de determinadas transações, mas não necessariamente deseja expor publicamente todas as informações econômicas envolvidas.
Existe, portanto, uma diferença importante entre transparência verificável e exposição pública irrestrita.
O sistema financeiro tradicional também não funciona com transparência absoluta. Bancos, empresas, gestores de ativos e outras instituições mantêm diferentes níveis de acesso às informações, permitindo que determinados dados sejam compartilhados com partes autorizadas, auditores ou autoridades quando necessário.
Para uma blockchain destinada a esse ambiente, simplesmente copiar o modelo de transparência total das redes públicas não resolve todos os requisitos institucionais.
É nesse ponto que a Arc introduz a ideia de privacidade configurável.
O modelo de privacidade opt-in da Arc
A proposta da Arc não é substituir a transparência por uma rede completamente privada.
O modelo é baseado em opt-in privacy, ou privacidade opcional. Isso significa que a proteção de determinadas informações pode ser utilizada quando uma aplicação ou operação exigir maior confidencialidade, enquanto outras atividades podem continuar funcionando de maneira transparente.
Essa característica é particularmente relevante porque diferentes aplicações possuem necessidades diferentes.
Uma aplicação pública de pagamentos pode preferir manter suas operações transparentes. Já uma plataforma utilizada por instituições financeiras pode precisar proteger determinados valores ou informações comerciais.
Em vez de impor uma única política de privacidade para toda a rede, a Arc procura oferecer uma infraestrutura capaz de acomodar os dois modelos.
A Circle descreve essa abordagem como a possibilidade de manter saldos e transações seletivamente protegidos, ajudando empresas e usuários a atender suas próprias obrigações de compliance.
O conceito de “opt-in” também é importante para evitar uma interpretação equivocada: a Arc não deve ser entendida como uma blockchain em que tudo fica automaticamente oculto.
A privacidade é apresentada como uma capacidade que pode ser incorporada aos fluxos que necessitam dela.
Isso permite preservar a abertura da rede para desenvolvedores e aplicações, enquanto determinadas operações financeiras podem utilizar mecanismos adicionais de proteção.
Na prática, esse modelo tenta aproximar a infraestrutura blockchain de uma realidade comum no sistema financeiro: nem toda informação precisa ser pública para que uma operação seja auditável.
Proteção de valores e saldos
Um dos aspectos mais sensíveis de qualquer sistema financeiro on-chain é a exposição dos valores movimentados.
Em uma blockchain completamente transparente, um observador pode analisar as transações e identificar quanto determinado endereço enviou ou recebeu. Mesmo quando a identidade associada ao endereço não é diretamente conhecida, padrões de movimentação podem revelar informações econômicas relevantes.
Para instituições financeiras, essa exposição pode ser problemática.
Uma empresa pode querer utilizar blockchain para obter liquidação rápida e programável, mas não necessariamente deseja que seus concorrentes consigam observar continuamente seu caixa, suas posições ou o tamanho de determinadas operações.
A arquitetura de privacidade da Arc procura permitir que informações desse tipo sejam protegidas quando necessário.
Isso é particularmente importante para operações envolvendo tesouraria, pagamentos corporativos, mercados de capitais e ativos tokenizados.
A lógica não é simplesmente esconder a existência da transação. O objetivo é permitir diferentes níveis de visibilidade.
Uma operação pode continuar fazendo parte do sistema verificável da blockchain enquanto determinadas informações econômicas ficam protegidas de observadores que não possuem autorização para acessá-las.
Esse modelo é diferente de simplesmente retirar a operação da blockchain.
A transação continua inserida em uma infraestrutura on-chain, mas seus dados sensíveis podem receber uma camada adicional de proteção.
Essa distinção é fundamental para aplicações institucionais porque permite combinar dois requisitos aparentemente conflitantes: confidencialidade comercial e capacidade de auditoria.
Ao mesmo tempo, a privacidade não deve ser confundida com anonimato absoluto.
Uma infraestrutura financeira institucional precisa continuar permitindo que informações relevantes sejam disponibilizadas às partes autorizadas e, quando aplicável, a mecanismos de compliance e supervisão.
É justamente por isso que a Arc associa sua proposta de privacidade a mecanismos de divulgação seletiva.
View Keys e divulgação seletiva de informações
Um dos conceitos mais importantes em sistemas de privacidade financeira é a possibilidade de determinar quem pode visualizar determinada informação.
Em vez de escolher entre dois extremos, tornar tudo público ou esconder tudo, mecanismos de divulgação seletiva permitem compartilhar informações específicas com participantes autorizados.
As chamadas view keys, ou chaves de visualização, estão relacionadas justamente a essa ideia.
Uma view key pode permitir que uma parte autorizada tenha acesso a determinadas informações protegidas sem que essas informações precisem ser expostas publicamente para todos os participantes da rede.
Isso pode ser útil em processos de auditoria, compliance e prestação de informações.
Por exemplo, uma instituição poderia manter determinadas operações protegidas do público em geral e, quando necessário, fornecer acesso às informações relevantes a um auditor ou outra parte autorizada.
O resultado é uma arquitetura na qual a privacidade deixa de significar ausência de transparência.
Em vez disso, passa a significar transparência direcionada.
Esse conceito é especialmente importante para o mercado financeiro porque diferentes participantes possuem diferentes direitos e responsabilidades sobre uma mesma operação.
Uma empresa pode precisar manter uma informação comercial confidencial, enquanto um auditor precisa verificá-la. Uma autoridade pode ter determinadas prerrogativas de supervisão, enquanto o público em geral não precisa conhecer todos os detalhes da operação.
A divulgação seletiva permite construir diferentes níveis de acesso sobre a mesma infraestrutura.
Essa característica também ajuda a explicar por que a Circle trata a privacidade da Arc como uma ferramenta para compatibilizar blockchain com requisitos institucionais, e não simplesmente como um mecanismo destinado a ocultar transações. A proposta oficial é proteger informações sensíveis enquanto mantém condições para governança, responsabilidade e compliance.
O papel dos TEEs e das tecnologias criptográficas futuras
A implementação de privacidade em sistemas financeiros on-chain exige mais do que simplesmente esconder informações na interface.
É necessário utilizar técnicas criptográficas e de computação capazes de processar determinadas operações sem expor seus dados sensíveis.
Entre as tecnologias consideradas nesse contexto estão os Trusted Execution Environments (TEEs), ou ambientes de execução confiáveis.
Um TEE cria uma área protegida dentro de um sistema computacional na qual determinados dados e operações podem ser processados com garantias adicionais de isolamento.
Na proposta de evolução da privacidade da Arc, os TEEs fazem parte da abordagem inicial para proteger determinadas operações. Outras técnicas criptográficas mais avançadas também podem desempenhar um papel importante à medida que a infraestrutura evolui.
Entre elas estão tecnologias como MPC (Multi-Party Computation), FHE (Fully Homomorphic Encryption) e Zero-Knowledge Proofs.
Essas tecnologias possuem características diferentes, mas compartilham um objetivo geral: permitir que sistemas processem ou comprovem determinadas informações sem exigir que todos os dados subjacentes sejam revelados.
A importância dessa combinação está no fato de que nenhuma tecnologia isolada precisa resolver todos os problemas de privacidade.
Os TEEs podem oferecer uma camada de computação protegida. Técnicas de MPC podem permitir que diferentes participantes cooperem em uma operação sem concentrar todos os dados sensíveis em um único ponto. A FHE permite explorar formas de computação sobre dados criptografados. E provas de conhecimento zero podem permitir demonstrar que determinada condição é verdadeira sem revelar integralmente a informação utilizada para produzi-la.
A arquitetura da Arc deve, portanto, ser entendida como uma infraestrutura que pode incorporar diferentes técnicas de privacidade ao longo de sua evolução, e não como um sistema baseado em uma única tecnologia definitiva.
Essa flexibilidade é importante porque a área de computação confidencial e criptografia aplicada ainda está evoluindo rapidamente.
Por que a privacidade ainda deve ser tratada como recurso em evolução
Embora a privacidade esteja entre os princípios fundamentais anunciados para a Arc, é importante separar a proposta arquitetural da Circle dos recursos efetivamente disponíveis em cada estágio da rede.
A própria Circle apresenta a privacidade como um componente da arquitetura da Arc e como um recurso configurável voltado a aplicações financeiras. Ao mesmo tempo, diferentes mecanismos e tecnologias podem ser introduzidos, aprimorados ou modificados conforme o desenvolvimento da rede avança.
Essa distinção é especialmente importante porque a Arc ainda está em processo de evolução.
Uma blockchain financeira precisa equilibrar vários requisitos simultaneamente: privacidade, auditabilidade, segurança, desempenho, interoperabilidade e compliance. Melhorar uma dessas dimensões pode criar novos desafios em outra.
Uma privacidade excessivamente rígida pode dificultar auditoria. Transparência excessiva pode inviabilizar determinados casos de uso institucionais. Uma arquitetura criptográfica muito complexa pode aumentar custos computacionais ou dificultar sua operação em escala.
Por isso, a proposta da Arc não deve ser interpretada como a existência de um modelo de privacidade perfeito e definitivo.
O objetivo é construir uma infraestrutura na qual o grau de exposição das informações possa ser ajustado às necessidades de cada aplicação.
Esse princípio também diferencia a Arc de muitas blockchains públicas tradicionais. Em vez de tratar transparência total como requisito universal ou privacidade total como objetivo absoluto, a rede procura trabalhar com diferentes níveis de acesso e divulgação.
Para o mercado financeiro institucional, essa abordagem pode ser tão importante quanto a velocidade da rede ou o baixo custo das transações.
Se blockchain pretende funcionar como infraestrutura para pagamentos, câmbio, tesouraria, mercados de capitais e ativos tokenizados, será necessário encontrar uma maneira de preservar a verificabilidade característica das redes distribuídas sem transformar informações comerciais sensíveis em dados permanentemente públicos.
A privacidade configurável da Arc representa justamente uma tentativa de resolver esse problema.
E, à medida que tecnologias criptográficas mais avançadas amadurecem, essa camada poderá se tornar ainda mais sofisticada, aproximando a infraestrutura blockchain das exigências de confidencialidade presentes no sistema financeiro tradicional.
Segurança e Preparação para a Computação Quântica
A segurança de uma blockchain não depende apenas do mecanismo de consenso ou da capacidade dos validadores de manter a rede funcionando. As próprias assinaturas criptográficas utilizadas pelas carteiras são uma parte fundamental dessa segurança.
Hoje, grande parte das blockchains utiliza algoritmos baseados em criptografia de curvas elípticas, como o ECDSA. Esses algoritmos são considerados seguros contra os computadores convencionais atuais, mas uma futura geração de computadores quânticos suficientemente poderosos poderá utilizar algoritmos como o de Shor para quebrar esse tipo de criptografia.
Para uma blockchain voltada ao sistema financeiro, esse problema possui uma dimensão ainda maior. Ativos institucionais podem permanecer sob custódia por muitos anos, e a infraestrutura responsável por protegê-los precisa considerar ameaças que ainda não existem em escala prática, mas que podem surgir durante a vida útil desses ativos.
A Circle vem tratando essa questão como parte do desenvolvimento da Arc. A rede já oferece suporte a SLH-DSA, um dos padrões de assinaturas pós-quânticas aprovados pelo NIST, mas mantém uma abordagem gradual para as assinaturas de transações. Atualmente, a Arc utiliza ECDSA para transações e pretende manter compatibilidade com ele em um futuro modelo híbrido, enquanto avalia qual esquema pós-quântico deverá ser adotado definitivamente.
A abordagem da Arc para segurança de carteiras
Uma carteira blockchain funciona, em essência, como o mecanismo que permite ao usuário provar que possui autorização para movimentar determinado ativo.
Essa autorização é baseada em criptografia de chave pública e privada. A carteira utiliza uma chave privada para produzir uma assinatura, enquanto a rede utiliza informações públicas correspondentes para verificar se aquela assinatura é válida.
Enquanto o algoritmo utilizado permanecer seguro, um observador que conheça apenas a informação pública não consegue produzir uma assinatura válida sem possuir a chave privada.
O problema da computação quântica surge porque determinados algoritmos quânticos podem reduzir drasticamente a dificuldade matemática de problemas utilizados por sistemas criptográficos tradicionais.
No caso das assinaturas baseadas em curvas elípticas, o principal risco está relacionado ao algoritmo de Shor. Um computador quântico suficientemente poderoso poderia, em princípio, obter uma chave privada a partir da chave pública correspondente, comprometendo a segurança de ativos controlados por aquela chave.
Por isso, preparar uma blockchain para a era quântica não significa simplesmente alterar um algoritmo isolado.
É necessário considerar todo o ecossistema de carteiras: bibliotecas criptográficas, sistemas de custódia, hardware de segurança, carteiras institucionais, ferramentas de desenvolvimento e os próprios mecanismos de assinatura das transações.
A Circle destaca justamente essa característica sistêmica do problema. Uma migração pós-quântica precisará envolver não apenas a blockchain, mas também os participantes que armazenam e movimentam os ativos.
A abordagem da Arc, portanto, procura evitar uma situação na qual a rede precise realizar uma mudança abrupta quando a ameaça quântica já estiver próxima.
Em vez disso, a estratégia é introduzir suporte a tecnologias pós-quânticas enquanto os padrões ainda estão amadurecendo, preservando a possibilidade de adaptação futura.
Suporte a SLH-DSA
Uma das tecnologias já suportadas pela Arc é o SLH-DSA, sigla para Stateless Hash-Based Digital Signature Algorithm.
O SLH-DSA é um esquema de assinatura digital baseado em funções hash, em vez de depender dos mesmos problemas matemáticos de curvas elípticas que tornam o ECDSA vulnerável a uma futura ameaça quântica.
O algoritmo faz parte dos padrões de criptografia pós-quântica desenvolvidos pelo National Institute of Standards and Technology (NIST). Isso é relevante porque a preparação para a computação quântica não depende apenas da criação de algoritmos teoricamente resistentes: é necessário que existam padrões bem definidos que possam ser implementados por sistemas reais.
Na Arc, o suporte ao SLH-DSA permite que desenvolvedores e carteiras experimentem assinaturas pós-quânticas na rede atualmente. A Circle confirmou que esse suporte já existe, mas também deixou claro que isso não significa que o SLH-DSA tenha sido escolhido como assinatura definitiva para todas as transações da Arc.
Essa distinção é importante.
O suporte ao SLH-DSA funciona como uma forma de preparação e experimentação, permitindo que o ecossistema desenvolva experiência com criptografia pós-quântica sem obrigar a rede a tomar prematuramente uma decisão definitiva.
Também existem compromissos técnicos envolvidos.
Assinaturas pós-quânticas geralmente são maiores do que assinaturas tradicionais baseadas em curvas elípticas. Isso pode aumentar o tamanho das transações, o armazenamento necessário e os requisitos de processamento.
Uma blockchain que pretende operar em grande escala precisa considerar essas consequências antes de transformar um algoritmo pós-quântico específico no padrão obrigatório para todas as transações.
Por esse motivo, a Arc mantém uma estratégia mais flexível.
O estado atual das assinaturas de transações
Apesar do suporte ao SLH-DSA, as transações da Arc atualmente utilizam ECDSA.
Esse é um dos pontos que precisam ser apresentados com precisão no artigo. Não seria correto afirmar que a Arc já abandonou o ECDSA ou que todas as transações da rede já utilizam assinaturas pós-quânticas.
A situação atual é híbrida em termos de preparação, mas não significa que cada transação esteja simultaneamente protegida por dois algoritmos.
A Arc continua utilizando ECDSA para suas assinaturas de transação enquanto a Circle avalia qual esquema pós-quântico deverá ser adotado como solução definitiva.
Essa decisão deliberada evita que a rede fique presa prematuramente a uma tecnologia que poderá apresentar limitações quando utilizada em escala.
O problema envolve vários fatores.
Uma assinatura utilizada por uma blockchain precisa funcionar não apenas matematicamente, mas também em carteiras, bibliotecas de desenvolvimento, sistemas de custódia, Hardware Security Modules, carteiras institucionais e diferentes modelos de autenticação.
Além disso, uma mudança desse tipo precisa considerar interoperabilidade.
O USDC já circula em dezenas de blockchains, e a Circle precisa levar em conta o fato de que a Arc fará parte de um ecossistema muito maior. Uma solução de segurança que não consiga conversar adequadamente com as ferramentas e infraestruturas utilizadas em outras redes poderia criar dificuldades para usuários e instituições que operam em múltiplos ambientes.
Por isso, a estratégia atual pode ser resumida da seguinte maneira:
ECDSA continua sendo utilizado nas transações, enquanto a Arc já oferece suporte a SLH-DSA e prepara o ecossistema para uma futura migração pós-quântica.
A transição planejada para um modelo híbrido
A estratégia de longo prazo da Arc é adotar um modelo no qual assinaturas clássicas e pós-quânticas possam coexistir durante o período de transição.
Esse modelo híbrido é importante porque uma migração completa não pode acontecer instantaneamente.
Existem milhões de carteiras, sistemas de custódia, contratos e aplicações que dependem de padrões criptográficos existentes. Se uma blockchain simplesmente abandonasse o modelo atual de uma hora para outra, poderia criar incompatibilidades significativas e até impedir determinados usuários de movimentar seus ativos.
No modelo híbrido, a infraestrutura pode continuar aceitando assinaturas tradicionais enquanto oferece suporte a um novo esquema pós-quântico.
Isso cria uma janela de transição.
Durante esse período, usuários e instituições podem atualizar suas carteiras e sistemas de custódia, migrar chaves e adaptar suas aplicações sem que todos precisem realizar a mudança simultaneamente.
A Circle afirma que pretende manter o suporte ao ECDSA em modo híbrido depois que um esquema definitivo de assinatura pós-quântica para transações for escolhido. A empresa ainda não selecionou esse algoritmo final e afirma estar avaliando a evolução dos padrões, dos riscos e dos impactos de desempenho antes de tomar a decisão.
Essa abordagem também reconhece uma realidade importante: criptografia pós-quântica ainda é uma área em evolução.
Os padrões estão avançando, novas pesquisas podem alterar avaliações de segurança e diferentes algoritmos possuem diferentes custos em termos de tamanho de assinatura, velocidade, armazenamento e compatibilidade.
Para uma infraestrutura financeira, escolher cedo demais pode ser tão problemático quanto escolher tarde demais.
A estratégia híbrida procura justamente equilibrar esses dois riscos.
Por que segurança pós-quântica é relevante para ativos financeiros de longo prazo
A ameaça quântica pode parecer distante quando comparada aos problemas de segurança enfrentados atualmente pelas blockchains. Entretanto, ativos financeiros possuem uma característica que torna o planejamento antecipado particularmente importante: sua vida útil pode ser muito longa.
Um título financeiro tokenizado, uma participação em um fundo ou um ativo mantido em custódia institucional pode permanecer registrado durante muitos anos.
Isso significa que a segurança necessária hoje precisa considerar não apenas as ameaças existentes no momento da emissão, mas também aquelas que podem surgir no futuro.
Existe ainda outro problema conhecido como harvest now, decrypt later, ou “colete agora, decifre depois”.
A ideia é que um atacante possa armazenar informações criptográficas hoje para tentar explorá-las futuramente, quando possuir recursos tecnológicos mais avançados. A Circle destaca esse risco em sua pesquisa sobre a preparação das blockchains para a computação quântica.
No contexto de ativos digitais, isso reforça a importância de planejar a migração antes que computadores quânticos sejam capazes de quebrar os mecanismos atuais.
Uma infraestrutura financeira não deveria esperar que a ameaça se torne prática para então começar a modificar carteiras, sistemas de custódia e mecanismos de assinatura.
A preparação antecipada permite que a migração aconteça gradualmente.
Para a Arc, esse princípio possui importância especial porque a rede foi concebida para atender justamente a operações financeiras que podem envolver grandes volumes de capital e horizontes de longo prazo.
Uma instituição que tokeniza um ativo hoje precisa ter confiança de que a infraestrutura continuará oferecendo mecanismos adequados de segurança no futuro.
Por isso, a preparação pós-quântica deve ser vista menos como uma promessa de que a Arc já está “imune à computação quântica” e mais como uma estratégia de adaptabilidade criptográfica.
A Arc já suporta SLH-DSA, mantém ECDSA para as transações atuais e trabalha em direção a um modelo híbrido enquanto avalia qual será o padrão pós-quântico definitivo. Essa combinação permite que a rede avance sem assumir prematuramente que a tecnologia necessária para a próxima geração de segurança já está completamente definida.
Para uma blockchain que pretende funcionar como infraestrutura de pagamentos, stablecoins, mercados de capitais e ativos tokenizados, essa capacidade de adaptação pode ser tão importante quanto velocidade, custos ou escalabilidade.
A segurança de longo prazo não depende apenas de possuir um algoritmo forte hoje. Depende também da capacidade de migrar para algoritmos mais fortes quando o cenário tecnológico mudar.
Governança e Evolução do Modelo de Validação
A governança é uma das partes mais delicadas da arquitetura da Arc porque a rede tenta conciliar características que tradicionalmente aparecem em modelos diferentes.
De um lado, a Arc foi concebida como uma blockchain pública e aberta para desenvolvedores, aplicações e usuários. De outro, sua infraestrutura de validação utiliza um conjunto permissionado de operadores identificados, uma escolha relacionada às exigências de segurança, responsabilidade e conformidade do mercado financeiro institucional.
Essa combinação faz com que a governança da Arc seja diferente tanto de uma blockchain completamente permissionless, na qual qualquer participante pode se tornar validador sob determinadas regras, quanto de uma infraestrutura financeira privada controlada por uma única empresa.
A Circle inicialmente exerce um papel central no desenvolvimento e na operação da rede, mas a visão declarada para o longo prazo é ampliar a participação de instituições, empresas de infraestrutura, desenvolvedores e outros participantes na operação e na governança da Arc.
O papel inicial da Circle
Nos estágios iniciais da Arc, a Circle desempenha um papel fundamental na construção e coordenação da infraestrutura.
Isso inclui o desenvolvimento do protocolo, a evolução da arquitetura, a organização do ecossistema e a coordenação da expansão do conjunto de validadores.
Essa concentração inicial não é necessariamente apresentada como o modelo definitivo da rede. Ela funciona como uma forma de estabelecer a infraestrutura antes que uma estrutura de governança mais ampla esteja madura.
A própria Circle descreveu o lançamento da testnet pública como o início de um processo de transição. Naquele momento, a empresa estava conduzindo o desenvolvimento e a operação inicial da Arc, enquanto a visão de longo prazo era evoluir para uma rede operada e governada por um conjunto mais amplo e globalmente distribuído de participantes.
Esse processo é particularmente relevante porque uma blockchain institucional precisa estabelecer regras claras antes de ampliar sua responsabilidade para um número maior de operadores.
É necessário definir quem pode participar da validação, quais são os requisitos para um operador, como mudanças de protocolo são aprovadas, como incidentes são tratados e quais mecanismos existem para resolver conflitos.
Em outras palavras, descentralizar uma rede financeira não significa simplesmente adicionar mais validadores.
Também é necessário descentralizar a capacidade de tomar decisões sobre a própria infraestrutura.
A Circle, portanto, funciona inicialmente como uma espécie de coordenadora do processo de construção da rede, enquanto prepara as condições para que outras instituições assumam uma participação cada vez maior.
Governança em uma rede com validadores permissionados
O modelo de validadores permissionados cria uma característica importante na governança da Arc: os participantes responsáveis pela segurança da rede são identificados e selecionados.
Na preparação para a mainnet pública, a Circle anunciou um grupo fundador formado por instituições como BlackRock, DTCC, Galaxy, Global Payments, ICE, Mastercard, MoneyGram, SBI Group, Standard Chartered, Sumitomo Corporation e Visa, além da própria Circle.
Esse modelo cria uma estrutura de responsabilidade diferente daquela encontrada em redes nas quais os validadores são completamente anônimos ou podem entrar e sair livremente.
Para uma instituição financeira, saber quem opera a infraestrutura pode ser relevante para processos de avaliação de risco, compliance e governança.
Também existe uma vantagem operacional: caso um problema grave seja identificado, existem participantes conhecidos que podem ser responsabilizados pela manutenção da infraestrutura e pela aplicação dos procedimentos definidos para a rede.
É justamente essa característica que a Circle associa à tentativa de tornar a infraestrutura da Arc mais compatível com os requisitos de governança e gestão de risco das instituições financeiras.
Por outro lado, esse modelo cria uma questão inevitável: quem controla os próprios validadores e quem define as regras às quais eles estão submetidos?
Quanto mais concentrada estiver essa capacidade, maior será a influência exercida por um pequeno grupo sobre a rede.
Por isso, o modelo permissionado não elimina o problema da governança. Ele apenas muda sua natureza.
Em uma blockchain permissionless, uma parte importante da discussão é como coordenar milhares de participantes que podem operar de maneira independente.
Em uma rede permissionada, a questão passa a ser como garantir que os participantes selecionados representem interesses suficientemente diversos e que nenhum grupo consiga exercer influência excessiva sobre a infraestrutura.
A Arc precisa, portanto, encontrar um equilíbrio entre responsabilidade institucional e neutralidade da rede.
O papel futuro dos detentores de ARC
O token ARC foi concebido para desempenhar um papel na evolução econômica e de segurança da rede, especialmente por meio de mecanismos relacionados a staking e participação no processo de validação.
Entretanto, é importante não confundir o papel econômico do token com um sistema de governança plenamente implementado desde o lançamento.
A arquitetura da Arc ainda está evoluindo, e a participação dos detentores de ARC na governança deve ser entendida dentro desse processo de desenvolvimento.
A visão apresentada pela Circle é de uma rede que progressivamente amplia a participação da comunidade e dos diferentes grupos que constroem e utilizam o ecossistema.
Isso pode incluir desenvolvedores, instituições financeiras, empresas de infraestrutura, aplicações e participantes econômicos que tenham interesse direto na evolução da rede.
O ponto central é que a governança de uma infraestrutura financeira não precisa necessariamente ficar concentrada exclusivamente nos validadores.
Existem diferentes dimensões de governança.
Uma delas envolve a segurança operacional, exercida pelos validadores que participam do consenso.
Outra envolve a evolução do protocolo, incluindo mudanças técnicas e atualizações.
E uma terceira pode envolver a participação econômica, por meio de mecanismos de staking e incentivos associados ao token ARC.
Essas dimensões podem se tornar progressivamente mais conectadas à medida que a rede amadurece.
Por isso, é mais preciso apresentar o ARC como parte de uma estrutura de coordenação econômica que pode ganhar importância na evolução futura da rede, em vez de afirmar que os detentores do token já controlam diretamente todas as decisões da Arc.
Essa distinção é especialmente importante porque uma governança efetivamente descentralizada depende não apenas da existência de um token, mas de regras claras que definam quais decisões podem ser influenciadas pelos seus participantes e como essa influência é exercida.
A evolução de Proof-of-Authority para Proof-of-Stake permissionado
O modelo atual da Arc utiliza um conjunto de validadores permissionados.
A evolução futura prevista para esse modelo contempla uma transição em direção a um sistema de Proof-of-Stake permissionado, no qual o staking pode assumir um papel maior na segurança econômica da rede.
Essa possibilidade não significa que a Arc já opere hoje com um modelo tradicional de Proof-of-Stake aberto.
A diferença é importante.
Em um PoS permissionless convencional, qualquer participante que cumpra os requisitos técnicos e econômicos definidos pelo protocolo pode potencialmente participar da validação.
No modelo permissionado, a participação continua sujeita a critérios de elegibilidade.
O staking, portanto, pode funcionar como uma camada adicional de segurança e alinhamento econômico sem necessariamente eliminar o controle sobre quem pode operar como validador.
Essa arquitetura procura combinar duas propriedades.
A primeira é a responsabilidade institucional, proporcionada por validadores conhecidos e sujeitos a requisitos definidos.
A segunda é a segurança econômica, na qual participantes possuem capital em risco ou incentivos econômicos relacionados ao comportamento correto da rede.
A transição também permitiria que o conjunto de validadores evoluísse gradualmente.
Em vez de depender permanentemente de um grupo pequeno de operadores selecionados pela Circle, a rede poderia ampliar a participação de diferentes instituições e operadores que cumpram os requisitos estabelecidos.
Esse processo está alinhado com o objetivo declarado pela Circle de expandir a participação dos validadores e estabelecer mecanismos de governança mais distribuídos.
É importante, porém, não apresentar essa evolução como uma transformação já concluída.
A Arc ainda está estabelecendo sua estrutura de governança e validação, e o modelo final poderá evoluir conforme a rede ganhe escala e experiência operacional.
Descentralização progressiva e seus desafios
A descentralização da Arc deve ser entendida como um processo gradual, e não como uma característica que pode ser determinada por uma única mudança de protocolo.
O primeiro desafio é ampliar o número e a diversidade dos validadores.
Quanto mais instituições independentes participarem da segurança da rede, menor tende a ser a dependência de um único grupo. A diversidade também pode reduzir riscos relacionados a falhas operacionais, jurisdições específicas ou interesses econômicos excessivamente concentrados.
A composição anunciada para a mainnet já representa um passo nessa direção. A presença de instituições de diferentes setores, como mercados de capitais, pagamentos, infraestrutura financeira, gestão de ativos e serviços digitais, cria uma base mais diversificada do que uma rede operada exclusivamente por uma única empresa.
Mas quantidade não é suficiente.
Se todos os validadores dependerem da mesma infraestrutura, estiverem sujeitos às mesmas jurisdições ou responderem aos mesmos interesses econômicos, a descentralização efetiva pode ser menor do que o número de participantes sugere.
Outro desafio é a governança das próprias regras.
Uma rede verdadeiramente distribuída precisa estabelecer mecanismos claros para decidir atualizações, responder a incidentes, alterar parâmetros e resolver situações extraordinárias.
Existe ainda uma tensão entre descentralização e previsibilidade.
Instituições financeiras valorizam regras claras, identificação dos responsáveis e capacidade de intervenção quando necessário. Já sistemas blockchain tradicionalmente valorizam resistência à censura, neutralidade e redução de pontos centrais de controle.
A Arc tenta ocupar um espaço intermediário.
Seu modelo busca manter a rede aberta para desenvolvedores e aplicações, enquanto a camada de validação permanece sujeita a critérios de participação e governança.
Isso significa que a descentralização da Arc provavelmente será diferente daquela encontrada em blockchains públicas de caráter mais permissionless.
O objetivo não parece ser simplesmente maximizar o número de validadores.
A proposta é construir uma rede na qual responsabilidade, segurança, governança e abertura possam coexistir.
Esse modelo traz vantagens potenciais para o mercado institucional, mas também cria um risco que não pode ser ignorado: quanto maior a influência de instituições selecionadas sobre a infraestrutura, maior a necessidade de mecanismos transparentes que impeçam a governança de se transformar em controle excessivamente concentrado.
A evolução da Arc deverá, portanto, ser observada não apenas pelo número de validadores, mas também por quem pode participar, como os participantes são selecionados, quais decisões podem tomar e de que maneira a comunidade e os demais usuários conseguem influenciar a evolução do protocolo.
É esse processo que determinará se a Arc conseguirá transformar sua atual estrutura permissionada em uma forma de governança institucionalmente responsável sem perder a neutralidade necessária para funcionar como infraestrutura financeira pública.
A trajetória proposta pela Circle aponta nessa direção: começar com uma estrutura mais controlada e identificável, ampliar progressivamente a distribuição dos validadores e desenvolver mecanismos de governança mais amplos à medida que a rede amadurece.
O Token ARC
Até este ponto, a Arc foi apresentada principalmente como uma infraestrutura que utiliza USDC para pagar as taxas de transação. Isso naturalmente levanta uma pergunta: se o USDC já cumpre a função de gás, por que a rede precisaria de um token próprio?
A resposta está na diferença entre meio de transação e mecanismo de coordenação.
O USDC foi escolhido para funcionar como ativo utilizado nas taxas porque oferece uma unidade de valor estável e diretamente relacionada à economia da rede. O ARC, por outro lado, foi concebido para desempenhar funções relacionadas à segurança, governança, incentivos e coordenação dos participantes da infraestrutura.
Essa separação é central para o desenho econômico proposto pela Circle.
É importante, entretanto, deixar claro que o ARC ainda não foi lançado. O whitepaper publicado em maio de 2026 apresenta uma arquitetura proposta para um possível token nativo, incluindo staking, governança, mecanismos de taxas e distribuição. Portanto, os mecanismos descritos nesta seção representam o desenho divulgado pela Circle e não funcionalidades já ativadas na rede.
Para que serve o token ARC
O ARC foi concebido como o ativo nativo de coordenação da Arc.
A Circle diferencia esse conceito de um token utilizado simplesmente para pagar transações. Na arquitetura proposta, o ARC conecta diferentes participantes do ecossistema, como validadores, desenvolvedores, instituições, provedores de infraestrutura e outros participantes, aos interesses de longo prazo da rede.
A lógica pode ser entendida pela separação de três componentes:
- blockchain Arc fornece o ambiente de execução e liquidação
- stablecoins, especialmente o USDC, funcionam como meio de transação e pagamento das taxas
- token ARC funciona como camada de coordenação econômica
Essa separação resolve um problema específico.
Stablecoins são excelentes instrumentos para movimentar valor, mas não necessariamente são adequadas para coordenar economicamente quem deve operar a infraestrutura, participar da segurança da rede ou decidir parâmetros econômicos do protocolo.
O ARC foi concebido justamente para preencher essa função.
Entre as atribuições propostas estão participação na governança econômica, staking, delegação, incentivos aos participantes e mecanismos relacionados às taxas do protocolo. A Circle também prevê utilidade mais ampla do token à medida que o ecossistema da Arc se expanda.
Assim, o ARC não foi concebido para substituir o USDC como dinheiro utilizado na rede.
Sua função é complementar.
Enquanto o USDC representa uma unidade monetária utilizada nas operações, o ARC representa uma ferramenta para coordenar os participantes responsáveis por construir, proteger e governar a infraestrutura.
ARC como mecanismo de segurança e staking
Uma das funções mais importantes previstas para o ARC está relacionada ao staking.
Atualmente, a Arc opera com um conjunto de validadores permissionados sob um modelo de Proof-of-Authority. A visão de evolução da rede contempla uma futura transição para Proof-of-Stake ou uma variante delegada de Proof-of-Stake.
Nesse cenário, o ARC poderia ser utilizado como ativo econômico associado à participação na segurança da rede.
Um validador que participe do sistema de Proof-of-Stake teria ARC em staking como parte de seu compromisso econômico com o funcionamento correto da rede. Outros participantes poderiam, de acordo com as regras que forem efetivamente implementadas, delegar seus tokens a validadores.
A ideia é criar um mecanismo no qual a participação na segurança da rede tenha uma dimensão econômica.
Um participante que ajuda a proteger a infraestrutura teria algo a ganhar ao agir corretamente e algo economicamente relevante associado à sua participação.
Esse modelo também permite separar a função de operar um validador da função de participar economicamente de um validador.
Isso pode ampliar a participação na segurança da rede, permitindo que nem todos os detentores de ARC precisem operar diretamente uma infraestrutura de validação.
É importante, porém, não apresentar esse mecanismo como já ativo.
O próprio whitepaper afirma que o ARC ainda não foi lançado e que seu desenho de staking ainda representa uma proposta para a futura evolução da Arc.
A transição para Proof-of-Stake também dependerá de decisões futuras sobre parâmetros como requisitos de participação, delegação, recompensas e mecanismos de penalização.
Portanto, neste momento, o papel do ARC como instrumento de segurança deve ser entendido como parte da arquitetura planejada para uma futura evolução do modelo de validação.
Incentivos econômicos para participantes da rede
Uma rede blockchain precisa alinhar os interesses de participantes que possuem funções diferentes.
Validadores precisam manter infraestrutura confiável. Desenvolvedores precisam construir aplicações. Provedores de liquidez precisam disponibilizar capital. Empresas de infraestrutura precisam fornecer serviços. Instituições precisam ter motivos para integrar seus sistemas.
O ARC foi projetado para ajudar a criar esse alinhamento.
A ideia é que diferentes formas de participação na Arc possam estar associadas a mecanismos econômicos que recompensem contribuições relevantes para o crescimento e a segurança da rede.
No caso dos validadores, isso pode ocorrer por meio das recompensas associadas ao staking.
Para outros participantes, a utilidade poderá surgir da expansão do ecossistema e da utilização do token em diferentes componentes da infraestrutura.
O modelo proposto também contempla recursos destinados ao ecossistema, incluindo incentivos, programas para desenvolvedores, liquidez e outras iniciativas destinadas a estimular a adoção da rede.
Isso explica por que uma parcela significativa da oferta planejada de ARC foi destinada ao ecossistema.
A proposta divulgada pela Circle prevê 60% da oferta inicial para o ecossistema, enquanto 25% seria destinado à Circle e 15% a uma reserva de longo prazo.
A intenção é que o token não funcione apenas como um mecanismo interno de validação, mas como uma ferramenta para estimular a formação de uma comunidade econômica em torno da infraestrutura.
Existe, porém, uma diferença importante entre incentivo projetado e adoção efetiva.
A existência de tokens destinados ao ecossistema não garante que desenvolvedores, instituições ou usuários participarão da rede. Esses incentivos precisam produzir valor econômico real para que a estrutura seja sustentável.
Captura e utilização das taxas
Um dos elementos mais interessantes do desenho do ARC está na relação entre as taxas pagas em USDC e os mecanismos econômicos associados ao token.
A Arc mantém o USDC como ativo utilizado para pagar o gás. O ARC não foi projetado para substituir o USDC nesse papel.
O whitepaper, entretanto, propõe conectar as taxas geradas pela atividade da rede a mecanismos de recompensa e queima de ARC.
Em termos simplificados, a atividade econômica da Arc gera taxas denominadas em stablecoins. Parte da lógica do protocolo poderia então utilizar essa atividade para alimentar mecanismos econômicos relacionados ao ARC.
Esse desenho cria uma relação entre uso da rede e coordenação do token.
Quanto maior a atividade econômica da infraestrutura, maior a quantidade de taxas geradas. Essas taxas, por sua vez, podem alimentar os mecanismos definidos pelo protocolo para recompensar participantes e realizar queimas.
A Circle descreve esse mecanismo como uma forma de conectar as taxas pagas em stablecoins a recompensas e mecanismos de burn relacionados ao uso real da rede.
Isso é diferente de dizer que os detentores de ARC receberão automaticamente uma parcela das receitas da Circle.
Não é isso que o desenho prevê.
O mecanismo é protocolar, e não uma participação societária nos resultados financeiros da empresa.
Além disso, os parâmetros específicos desse sistema ainda podem ser alterados antes de uma eventual ativação do token.
A proposta também contempla governança sobre parâmetros econômicos como taxas, inflação e lógica de queima.
Assim, o ARC procura criar uma relação entre três elementos:
- atividade da rede → taxas pagas em stablecoins → mecanismos econômicos de recompensa e queima do ARC
Essa estrutura busca fazer com que a economia do token esteja relacionada ao funcionamento efetivo da infraestrutura, em vez de depender exclusivamente de uma emissão pré-programada sem conexão com o uso da rede.
Oferta total e distribuição do token
O desenho atual prevê uma oferta inicial de 10 bilhões de ARC.
Essa quantidade, entretanto, não deve ser tratada como necessariamente a oferta máxima definitiva. A documentação da Circle indica que a oferta poderá aumentar como resultado do funcionamento programático do protocolo, especialmente em função dos mecanismos econômicos associados à futura operação da rede.
A distribuição inicial proposta está dividida em três grandes grupos:
- ecossistema 60%
- Circle 25%
- reserva 15%
A maior parcela, portanto, foi destinada ao ecossistema.
Essa categoria contempla elementos como programas de incentivo, desenvolvimento, liquidez e mecanismos destinados a ampliar a participação na rede. A parcela destinada à Circle está relacionada à administração inicial, desenvolvimento do protocolo e outros objetivos estratégicos. A reserva busca proporcionar maior flexibilidade para a evolução e estabilidade econômica do sistema.
A estrutura precisa ser interpretada com cautela porque a distribuição efetiva, os cronogramas de desbloqueio e outros detalhes econômicos estão sujeitos às condições definitivas de lançamento.
Além disso, a Circle já realizou uma captação privada relacionada ao ARC, de US$ 222 milhões, em 2026, a uma avaliação totalmente diluída de US$ 3 bilhões. Essa operação não significa que o token já esteja disponível publicamente ou que exista atualmente um mercado aberto para ele.
Para o leitor, a distinção é importante: presale e distribuição prevista não equivalem ao lançamento de um token em uma rede pública.
No momento desta publicação, a própria documentação oficial continua classificando o ARC como um token não lançado e sujeito a mudanças.
ARC como token de utilidade e coordenação
O conceito de coordenação é provavelmente a melhor maneira de compreender o desenho econômico do ARC.
Um token de utilidade tradicional pode dar acesso a determinada funcionalidade. Um token de governança pode permitir votar em propostas. Um token utilizado para staking pode ajudar a proteger uma rede.
O ARC procura combinar essas funções dentro de uma mesma estrutura.
A Circle chama essa categoria de coordination asset, ou ativo de coordenação.
Na proposta, o token conecta segurança, governança, mecanismos de taxas e utilidade do ecossistema.
Isso cria uma arquitetura econômica complementar ao funcionamento da própria Arc.
A rede fornece a infraestrutura.
O USDC fornece uma unidade monetária estável para as operações e para o pagamento das taxas.
O ARC coordena os participantes que mantêm e governam essa infraestrutura.
Essa distinção é particularmente relevante para a proposta institucional da Arc.
Uma blockchain utilizada por bancos, empresas de pagamentos, gestores de ativos e aplicações financeiras precisa de mecanismos para coordenar participantes que possuem interesses diferentes. O token pode funcionar como uma camada econômica comum entre esses grupos.
No futuro, isso pode envolver governança sobre parâmetros econômicos, staking de validadores, delegação, incentivos para desenvolvedores e outras formas de participação.
Mas existe uma ressalva essencial: essas são funções projetadas para o ARC, não funcionalidades já ativadas.
O whitepaper deixa explícito que o token ainda não foi lançado e que suas características podem ser modificadas, adiadas ou até descontinuadas.
Portanto, o ARC deve ser analisado neste momento principalmente como uma proposta de arquitetura econômica para a evolução da Arc.
O que o token ARC não representa
Entender o que o ARC não representa é tão importante quanto compreender suas funções propostas.
Primeiro, o ARC não foi projetado para substituir o USDC como moeda utilizada nas transações da Arc.
O USDC continua sendo o ativo escolhido para o pagamento do gás e ocupa uma posição central na economia operacional da rede.
Segundo, o ARC não representa participação acionária na Circle Internet Group.
A documentação oficial afirma expressamente que o token não representa equity, propriedade, participação nos lucros, dividendos ou qualquer outro direito econômico sobre a Circle, suas afiliadas ou seus ativos.
Também não deve ser interpretado como uma participação nas receitas da Circle.
Os mecanismos de taxas descritos no desenho do protocolo são mecanismos internos da economia da rede. Eles não equivalem a dividendos ou distribuição dos resultados financeiros da empresa.
Da mesma forma, o ARC não representa uma moeda fiduciária digital.
Essa função é desempenhada por ativos como o USDC e outras stablecoins.
Por fim, é importante não confundir a existência do whitepaper com o lançamento efetivo do token.
O ARC ainda não foi lançado.
O documento publicado pela Circle descreve uma arquitetura proposta para um futuro ativo de coordenação, mas deixa claro que o desenho, a funcionalidade, o cronograma e a própria implementação continuam sujeitos a mudanças.
Essa distinção é especialmente importante porque a Arc está se aproximando de sua mainnet pública, mas o lançamento da blockchain e o lançamento do token ARC são eventos distintos.
A rede pode operar utilizando USDC como gás e seu modelo atual de validação permissionada sem que o ARC esteja ativo.
O token somente assumirá as funções de staking, governança e coordenação econômica descritas neste capítulo caso a arquitetura proposta seja efetivamente implementada.
Assim, o ARC representa uma tentativa de criar uma camada econômica de coordenação sobre uma infraestrutura que já possui sua própria unidade de transação: o USDC.
Essa separação entre dinheiro utilizado na rede e ativo utilizado para coordenar a rede é uma das características mais interessantes do modelo econômico que a Circle está propondo para a Arc.
Ativos Tokenizados e Finanças Institucionais
A proposta da Arc vai muito além da movimentação de stablecoins.
Desde seu anúncio, a Circle posiciona a blockchain como uma infraestrutura capaz de suportar diferentes formas de valor digitalizado, incluindo stablecoins, ações tokenizadas, commodities, fundos, instrumentos de crédito, títulos e outros ativos financeiros.
Essa visão coloca a Arc no centro de uma transformação mais ampla: a transferência de partes do sistema financeiro tradicional para ambientes on-chain.
A tokenização não significa simplesmente criar uma representação digital de um ativo. Para que um mercado financeiro tokenizado seja realmente útil, é necessário também oferecer infraestrutura para emissão, custódia, negociação, transferência, liquidação e movimentação de garantias.
É justamente nessa camada que a Arc pretende atuar.
Sua combinação de finalização determinística em subsegundos, taxas denominadas em USDC, compatibilidade com a EVM, infraestrutura de stablecoins e mecanismos voltados a instituições financeiras cria uma base sobre a qual diferentes tipos de ativos tokenizados podem ser utilizados por aplicações on-chain.
A estratégia também se conecta à visão mais ampla da Circle de construir uma infraestrutura financeira na qual stablecoins funcionem como dinheiro digital e ativos tokenizados representem instrumentos financeiros e outros tipos de valor.
A Arc como infraestrutura para ativos do mundo real
Os chamados Real-World Assets (RWAs) são ativos ou direitos que existem fora da blockchain e passam a ser representados digitalmente em uma rede distribuída.
Essa categoria pode incluir títulos públicos, fundos de investimento, crédito, ações, commodities, imóveis e outros instrumentos.
A tokenização permite representar esses ativos por meio de tokens programáveis. Entretanto, a existência do token é apenas uma parte do processo.
Para que um ativo tokenizado tenha utilidade financeira, ele precisa estar conectado às regras e aos sistemas que determinam quem possui o ativo, quais direitos estão associados a ele, como ele pode ser transferido e como ocorre sua liquidação.
A Arc foi concebida para fornecer justamente uma camada blockchain na qual esses ativos possam ser emitidos e utilizados por aplicações compatíveis com contratos inteligentes.
A compatibilidade com a EVM permite que desenvolvedores utilizem Solidity e ferramentas já consolidadas no ecossistema Ethereum para criar contratos relacionados a ativos tokenizados. A própria documentação da Circle demonstra a utilização de contratos ERC-20 na Arc para representar RWAs e integrar esses ativos com USDC, EURC e USYC.
Isso cria uma arquitetura na qual diferentes componentes podem interagir.
Um ativo tokenizado pode representar um instrumento financeiro. Um contrato inteligente pode definir suas regras de transferência. Uma stablecoin pode fornecer o meio de pagamento. E a própria blockchain pode registrar a liquidação da operação.
Essa composição é particularmente importante para instituições financeiras porque permite aproximar ativo, dinheiro e liquidação dentro de um mesmo ambiente tecnológico.
A Circle também posiciona a Arc como uma infraestrutura para emissores de stablecoins, fundos do mercado monetário, instrumentos de crédito e títulos tokenizados.
Portanto, os RWAs não são apenas um caso de uso adicional da Arc. Eles fazem parte da tentativa de transformar a rede em uma camada de infraestrutura para diferentes segmentos do sistema financeiro.
Fundos e títulos tokenizados
Fundos de investimento estão entre os casos mais claros para a tokenização.
Um fundo tradicional possui uma estrutura jurídica, ativos sob custódia, processos de subscrição e resgate e uma série de operações administrativas. Ao representar determinadas participações por tokens, parte dessas funções pode ser integrada a sistemas programáveis.
O investidor pode utilizar uma infraestrutura digital para adquirir, manter ou resgatar uma participação tokenizada, enquanto os contratos inteligentes coordenam determinadas etapas do processo.
Isso não elimina a estrutura jurídica ou regulatória que sustenta o fundo.
O token continua dependendo dos direitos associados ao ativo que representa.
A diferença é que a representação digital pode facilitar a integração desse ativo com outras aplicações financeiras on-chain.
Um fundo tokenizado pode, por exemplo, ser utilizado como garantia em determinada operação ou integrado a sistemas de gestão de liquidez. A possibilidade de movimentar o ativo em uma infraestrutura programável pode ampliar sua composabilidade financeira.
A Arc foi projetada para esse tipo de interação.
A própria Circle cita fundos do mercado monetário, títulos e outros instrumentos financeiros entre os tipos de ativos que podem utilizar a rede. Além disso, participantes do ecossistema já incluem emissores de fundos tokenizados e protocolos de liquidez.
Os benefícios potenciais incluem liquidação mais rápida, disponibilidade contínua, automação de processos e integração com stablecoins.
Isso pode ser particularmente relevante para operações em que o ativo financeiro e o dinheiro utilizado para sua aquisição precisam ser movimentados de maneira coordenada.
Em uma transação tradicional, diferentes sistemas podem controlar o ativo e o pagamento.
Em uma infraestrutura on-chain, ambos podem ser representados digitalmente e coordenados por contratos inteligentes.
Esse é um dos motivos pelos quais a tokenização é frequentemente associada à modernização da infraestrutura de mercados de capitais.
BlackRock e a perspectiva de integração do BUIDL
Um dos exemplos mais relevantes da estratégia institucional da Arc é a relação com o BUIDL, fundo de liquidez digital institucional da BlackRock.
O BUIDL representa participações em um fundo estruturado para oferecer exposição tokenizada a ativos de curto prazo do Tesouro dos Estados Unidos e outros instrumentos de liquidez.
A BlackRock está entre as instituições que participam do ecossistema da Arc e, em agosto de 2026, a Circle anunciou que o BUIDL é esperado para ser disponibilizado na Arc.
Essa formulação é importante: trata-se de uma integração anunciada e esperada, e não de afirmar que o BUIDL já estava operacional na Arc no momento da publicação deste artigo.
A proposta é permitir que investidores institucionais possam subscrever, resgatar e utilizar ativos relacionados ao fundo dentro de um ambiente on-chain integrado ao USDC.
Essa integração possui importância estratégica porque demonstra como a Arc pode conectar dinheiro digital e ativos financeiros tokenizados.
Em um fluxo hipotético, uma instituição poderia utilizar USDC para movimentar recursos e interagir com uma representação tokenizada de um fundo dentro da mesma infraestrutura.
A vantagem não está simplesmente em colocar o fundo em uma blockchain.
O objetivo é criar um ambiente no qual o ativo tokenizado possa interagir com outras aplicações financeiras, permitindo que sua movimentação e liquidação sejam incorporadas a fluxos programáveis.
A própria BlackRock destacou a possibilidade de redes como a Arc contribuírem para maior velocidade de liquidação, mobilidade de garantias e expansão da adoção institucional de ativos digitais.
O caso do BUIDL, portanto, funciona como um exemplo concreto da direção pretendida pela Arc: utilizar uma blockchain especializada para conectar fundos tokenizados, stablecoins e infraestrutura de mercado.
Tokenização de ativos financeiros
A tokenização pode transformar diferentes tipos de ativos financeiros em instrumentos programáveis.
A lógica pode ser aplicada a títulos de renda fixa, fundos, crédito, ações, commodities e outros instrumentos que possuam uma estrutura jurídica e econômica capaz de ser representada digitalmente.
Nesse modelo, o token não precisa ser apenas uma representação passiva.
Contratos inteligentes podem estabelecer regras sobre transferência, elegibilidade, distribuição de rendimentos, utilização como garantia ou integração com outros protocolos.
Isso cria uma diferença importante em relação à simples digitalização de documentos.
Um arquivo digital de um título financeiro não é necessariamente um ativo programável.
Um token registrado em uma blockchain, por outro lado, pode ser incorporado diretamente a aplicações que reconhecem suas propriedades e regras.
A Arc procura oferecer a infraestrutura necessária para esse tipo de composição.
Sua compatibilidade com a EVM permite que desenvolvedores reutilizem padrões e ferramentas conhecidos, enquanto a integração com ativos da Circle fornece componentes monetários que podem ser utilizados junto aos ativos tokenizados.
A tokenização também pode modificar a forma como garantias são movimentadas.
Um ativo financeiro tokenizado pode potencialmente ser transferido entre participantes ou utilizado como collateral em uma operação sem precisar passar por tantas etapas de reconciliação entre sistemas independentes.
Esse tipo de mobilidade pode ser especialmente relevante para mercados institucionais.
Em vez de tratar o ativo, o pagamento e a garantia como elementos pertencentes a sistemas completamente separados, uma infraestrutura on-chain pode permitir que todos interajam dentro de um ambiente programável.
A Arc foi projetada justamente com essa possibilidade em mente.
A Circle descreve como um dos objetivos da rede trazer para o ambiente on-chain mercados tradicionais como ações, renda fixa e commodities, combinando esses ativos com dinheiro digital e infraestrutura programável.
Liquidação e movimentação de capital institucional
A tokenização ganha ainda mais importância quando analisada sob a perspectiva da liquidação.
Em uma operação financeira tradicional, a transferência do ativo e a transferência do dinheiro podem ocorrer em sistemas diferentes e depender de processos de reconciliação.
Isso cria custos operacionais e pode introduzir intervalos entre o momento em que uma transação é acordada e aquele em que ela é efetivamente liquidada.
Em uma infraestrutura blockchain, o objetivo é aproximar essas etapas.
A Arc foi concebida para oferecer finalização determinística em subsegundos e utilizar stablecoins como ativos nativos de liquidação. Isso cria uma base para operações em que dinheiro digital e ativos tokenizados possam ser movimentados dentro de um mesmo ambiente.
Um exemplo é o conceito de Delivery-versus-Payment (DvP).
Nesse modelo, a transferência do ativo ocorre de maneira coordenada com a transferência do pagamento. A lógica procura reduzir o risco de uma parte entregar o ativo sem receber o valor correspondente.
No contexto da Arc, USDC e outros ativos digitais podem participar dessa estrutura.
Uma instituição poderia utilizar USDC para liquidar a aquisição de um ativo tokenizado, enquanto um contrato inteligente coordena a transferência das duas partes da operação.
A vantagem potencial é reduzir a fragmentação entre sistemas de pagamento e sistemas de registro de ativos.
Isso também pode melhorar a mobilidade do capital.
Uma garantia tokenizada poderia, por exemplo, ser movimentada entre aplicações financeiras compatíveis sem necessariamente exigir os mesmos processos manuais de transferência e reconciliação encontrados em infraestruturas tradicionais.
A Circle cita explicitamente tokenized collateral, ou garantias tokenizadas, como um dos casos de uso da Arc, juntamente com liquidação de instrumentos financeiros.
Essa característica pode ter impacto especialmente relevante para mercados de capitais, nos quais grandes quantidades de capital permanecem vinculadas a garantias, títulos e instrumentos financeiros durante operações de financiamento.
Ao tornar esses ativos programáveis e mais facilmente movimentáveis, a infraestrutura on-chain pode permitir que o capital seja utilizado de maneira mais eficiente.
Entretanto, essa eficiência tecnológica não elimina os requisitos jurídicos e regulatórios associados aos ativos.
A blockchain pode acelerar a movimentação de uma representação digital, mas os direitos econômicos e legais sobre o ativo continuam dependendo da estrutura que o sustenta.
É justamente por isso que a participação de instituições como BlackRock e DTCC é relevante para a evolução desse modelo.
A infraestrutura tecnológica precisa estar conectada a estruturas financeiras reconhecidas para que a tokenização possa alcançar mercados institucionais em escala.
A relação entre Arc, stablecoins e RWAs
A combinação entre stablecoins e ativos tokenizados talvez seja o elemento que melhor sintetiza a proposta institucional da Arc.
Um ativo financeiro tokenizado representa aquilo que está sendo negociado.
Uma stablecoin representa o dinheiro utilizado para pagar por esse ativo.
A blockchain fornece o ambiente no qual ambos podem interagir.
Essa combinação cria uma espécie de infraestrutura financeira integrada.
Imagine uma operação envolvendo um título tokenizado. O ativo está representado digitalmente, enquanto o comprador utiliza USDC para realizar o pagamento. Um contrato inteligente pode coordenar a transferência do título e a liquidação do valor.
O mesmo princípio pode ser aplicado a fundos, crédito, commodities tokenizadas e outros instrumentos.
A Arc procura justamente oferecer uma infraestrutura na qual esses componentes possam coexistir.
Nesse modelo, as stablecoins deixam de ser apenas instrumentos para pagamentos dentro do mercado cripto e passam a funcionar como ativos de liquidação para mercados financeiros tokenizados.
A própria Circle destaca essa conexão ao apresentar stablecoins, ativos tokenizados e infraestrutura de mercado como componentes de uma mesma arquitetura financeira.
Isso também explica por que o USDC possui uma função tão importante na Arc.
O USDC não é apenas o ativo utilizado para pagar o gás. Ele pode funcionar como a camada monetária que conecta diferentes aplicações e ativos financeiros.
O EURC amplia essa lógica para operações denominadas em euro. O USYC introduz um ativo tokenizado associado a rendimento. Outros emissores podem, no futuro, utilizar a infraestrutura para representar diferentes moedas e instrumentos.
O resultado potencial é uma economia on-chain na qual dinheiro digital, ativos financeiros e contratos inteligentes operam dentro da mesma infraestrutura.
Essa é uma diferença importante em relação à visão de uma blockchain utilizada exclusivamente para transferir criptomoedas.
A proposta da Arc está mais próxima de uma infraestrutura de mercado na qual pagamentos, câmbio, crédito, garantias e ativos financeiros tokenizados podem ser combinados.
A integração anunciada com a DTCC reforça essa direção. A colaboração prevê permitir a tokenização, na Arc, de ativos custodiados pelo DTC a partir do segundo semestre de 2027, possibilitando que participantes utilizem aplicações de terceiros para realizar determinadas formas de liquidação baseada em stablecoins contra esses ativos tokenizados.
Esse cronograma também mostra por que é importante distinguir visão de longo prazo, integração anunciada e funcionalidade já disponível.
A Arc está sendo construída para suportar uma economia financeira tokenizada, mas a adoção institucional ocorrerá progressivamente.
Se essa evolução se concretizar, a principal transformação não será simplesmente a existência de mais ativos em formato de token.
Será a possibilidade de conectar dinheiro, ativos e liquidação em uma mesma camada programável, permitindo que operações que hoje dependem de múltiplos sistemas financeiros possam ser coordenadas de maneira mais direta.
Nesse cenário, stablecoins funcionam como dinheiro digital, RWAs representam ativos econômicos e a Arc atua como uma infraestrutura comum para conectar ambos.
É essa combinação que coloca a tokenização no centro da visão da Circle para a Arc e ajuda a explicar por que a rede foi projetada para ser muito mais do que uma blockchain dedicada exclusivamente a pagamentos com stablecoins.
Principais Casos de Uso da Arc
A arquitetura da Arc foi desenvolvida para atender a uma classe específica de aplicações: aquelas que precisam movimentar, converter, liquidar ou representar valor digital de maneira rápida, previsível e programável.
Por isso, seus casos de uso estão concentrados principalmente em pagamentos, tesouraria, câmbio, liquidação institucional e mercados financeiros.
Essa orientação não significa que a Arc esteja limitada a um único tipo de aplicação. Como uma blockchain compatível com a EVM e aberta a desenvolvedores, ela pode receber diferentes contratos e protocolos. Entretanto, a combinação entre stablecoins como unidade econômica, finalização determinística em subsegundos, infraestrutura de câmbio, privacidade configurável e um conjunto de validadores voltado ao ambiente institucional direciona naturalmente seu ecossistema para operações financeiras.
Pagamentos globais
Os pagamentos internacionais estão entre os casos de uso mais diretamente associados à proposta da Arc. A utilização de stablecoins permite representar digitalmente moedas fiduciárias e movimentá-las por uma infraestrutura que funciona continuamente, enquanto a Arc fornece a camada de liquidação necessária para registrar e finalizar essas operações.
Na prática, isso pode permitir que empresas e instituições movimentem valores entre diferentes países sem depender exclusivamente das estruturas tradicionais de compensação e liquidação. O USDC pode funcionar como ativo de liquidação, enquanto outras stablecoins, como o EURC e stablecoins emitidas por parceiros em moedas locais, podem ampliar o número de corredores disponíveis. A Circle também posiciona sua Circle Payments Network (CPN) como uma camada complementar para conectar bancos, provedores de pagamento, empresas e outros participantes.
Esse modelo é particularmente relevante para pagamentos B2B, remessas, payouts, recebimentos internacionais e transferências entre empresas. Em vez de tratar a blockchain apenas como uma rede para transferir tokens, a proposta é utilizá-la como uma infraestrutura de liquidação sobre a qual diferentes serviços financeiros podem ser construídos.
A própria Circle identifica pagamentos como um dos principais casos de uso da Arc, incluindo fluxos de pagamento atuais e, potencialmente, sistemas em que agentes de software possam enviar, trocar e liquidar valores de forma programática.
Tesouraria corporativa
A tesouraria corporativa envolve o gerenciamento de caixa, liquidez e obrigações financeiras de uma empresa. Em organizações que operam internacionalmente, essa atividade pode exigir a administração de diferentes moedas, contas bancárias, horários de liquidação e necessidades de conversão cambial.
A infraestrutura da Arc pode ser utilizada para transformar parte dessas operações em fluxos programáveis. Uma empresa poderia, por exemplo, manter liquidez em stablecoins, movimentar recursos entre diferentes entidades, converter moedas por mecanismos on-chain e estabelecer regras automatizadas para pagamentos e liquidações.
Nesse contexto, o valor da Arc não está apenas na velocidade de uma transferência individual, mas na possibilidade de integrar movimentação de dinheiro, câmbio e lógica programável em uma mesma infraestrutura. A Circle aponta justamente a gestão de tesouraria e de liquidez como uma das áreas que podem ser transformadas pela combinação entre stablecoins, Arc e suas demais ferramentas de infraestrutura financeira.
Esse tipo de aplicação também pode reduzir a fragmentação operacional. Em vez de tratar pagamentos, conversão cambial e liquidação como processos completamente separados, sistemas corporativos podem utilizar contratos inteligentes e APIs para coordenar diferentes etapas de uma operação financeira.
Liquidação entre instituições financeiras
Outro caso de uso importante é a liquidação de operações entre instituições financeiras. Mercados tradicionais frequentemente dependem de processos de compensação, custódia, reconciliação e liquidação que envolvem múltiplos participantes e diferentes sistemas.
A Arc foi projetada para permitir que parte dessa infraestrutura seja transferida para uma camada on-chain. Sua finalização determinística em subsegundos é particularmente relevante nesse contexto, pois permite que as partes saibam rapidamente quando uma operação foi definitivamente registrada e liquidada.
Um exemplo é o modelo de delivery versus payment (DvP), no qual um ativo financeiro e o dinheiro utilizado para sua aquisição são movimentados de maneira coordenada. A arquitetura da Arc foi concebida para possibilitar esse tipo de liquidação utilizando stablecoins e ativos financeiros tokenizados, além de permitir o uso de ativos tokenizados como garantia.
Essa característica também pode ser importante para operações envolvendo garantias, margem e gestão de liquidez. A Circle apresenta a Arc como uma infraestrutura capaz de conectar ativos tokenizados, stablecoins e mercados financeiros, buscando reduzir o tempo necessário para movimentar capital entre diferentes etapas de uma operação.
Câmbio internacional
O câmbio é outro componente central da proposta da Arc porque a movimentação global de dinheiro não pode depender de uma única moeda. Se empresas e instituições utilizarem stablecoins denominadas em diferentes moedas, será necessário transformar uma unidade de valor em outra de maneira eficiente.
É nesse ponto que entra o StableFX, mecanismo de câmbio da Circle desenvolvido sobre a infraestrutura da Arc. O sistema combina solicitações de cotação (Request for Quote, ou RFQ) de diferentes provedores de liquidez com liquidação on-chain. Dessa maneira, uma instituição pode solicitar cotações, escolher uma contraparte e realizar a liquidação da operação diretamente na blockchain.
O modelo também permite operações de câmbio continuamente disponíveis, em vez de depender exclusivamente dos horários tradicionais dos mercados financeiros. A estrutura foi concebida para trabalhar com diferentes stablecoins, incluindo USDC, EURC e moedas digitais emitidas por parceiros em mercados locais.
Para a Arc, portanto, o câmbio não é apenas uma aplicação adicional. Ele complementa a própria proposta de pagamentos internacionais: uma infraestrutura global precisa ser capaz não apenas de transferir valor, mas também de converter esse valor entre diferentes unidades monetárias.
Financiamento de cadeias de suprimentos
O financiamento de cadeias de suprimentos é um caso de uso mais amplo e ainda em desenvolvimento, mas a arquitetura da Arc fornece componentes que podem ser utilizados para construir soluções nessa área.
Empresas que participam de cadeias globais de fornecimento frequentemente precisam lidar com pagamentos internacionais, crédito comercial, recebíveis, garantias e diferentes prazos de liquidação. A combinação entre stablecoins, contratos inteligentes e ativos tokenizados pode permitir que esses processos sejam representados de maneira mais programável.
Um fornecedor poderia, por exemplo, receber um ativo digital representando um direito financeiro ou utilizar uma operação de crédito on-chain vinculada a informações externas sobre sua atividade. A Circle descreve justamente o crédito on-chain como uma área em que stablecoins podem ser combinadas com informações externas, identidade, histórico de fluxo de caixa, reputação e modelos de avaliação de risco.
É importante, entretanto, não confundir essa possibilidade arquitetural com um produto de financiamento de cadeias de suprimentos já oferecido diretamente pela Arc. Nesse caso, a blockchain fornece os componentes de liquidação, programabilidade e representação de valor sobre os quais instituições e desenvolvedores podem construir aplicações específicas.
Mercados de capitais e ativos tokenizados
Os mercados de capitais representam talvez a aplicação mais ambiciosa da Arc. A proposta é utilizar a blockchain não apenas para pagamentos, mas também para representar e movimentar ativos financeiros tradicionalmente mantidos em sistemas convencionais.
Isso inclui fundos, títulos, instrumentos de crédito, ações, commodities e outros ativos que podem ser representados por tokens. Nesse modelo, a Arc funciona como uma camada de infraestrutura na qual esses ativos podem ser emitidos, transferidos, utilizados como garantia e liquidados em conjunto com stablecoins.
Um dos exemplos mais relevantes é o fundo tokenizado BUIDL, da BlackRock, cuja implantação na Arc foi anunciada como esperada pela Circle. A DTCC também anunciou planos para utilizar a Arc em iniciativas de tokenização de ativos mantidos sob sua custódia, com início previsto para a segunda metade de 2027. Esses anúncios demonstram o tipo de infraestrutura institucional que a Arc pretende suportar, mas não significam que todos esses ativos já estejam operando na rede.
A combinação entre ativos tokenizados e stablecoins também permite explorar modelos de liquidação mais próximos do funcionamento de mercados financeiros tradicionais, porém com uma infraestrutura programável. Uma operação poderia envolver simultaneamente um ativo tokenizado, uma stablecoin utilizada como pagamento e um contrato inteligente responsável por verificar as condições da transação.
É essa convergência que ajuda a explicar a posição da Arc dentro da estratégia da Circle. A rede não foi concebida apenas para transportar stablecoins, mas para servir como infraestrutura sobre a qual pagamentos, câmbio, crédito, garantias e mercados de capitais possam funcionar de maneira integrada.
Chainlink e a Infraestrutura de Dados da Arc
Uma blockchain pode registrar transações e executar contratos inteligentes de maneira determinística, mas não consegue, por conta própria, acessar informações que existem fora de sua própria rede. Para uma blockchain voltada ao mercado financeiro, essa limitação se torna especialmente importante, pois aplicações institucionais dependem de preços de ativos, taxas de câmbio, informações sobre reservas, dados de mercado e comunicação com outras redes.
É nesse ponto que entram os oráculos e as soluções de interoperabilidade. A Arc foi integrada ao Chainlink Scale, permitindo que desenvolvedores tenham acesso a uma infraestrutura complementar para conectar aplicações construídas sobre a rede a dados externos e a outros ambientes blockchain. A integração inclui Chainlink CCIP, Data Feeds, Data Streams e Proof of Reserve.
Por que blockchains financeiras precisam de dados externos
Blockchains são ambientes determinísticos: os nós precisam chegar ao mesmo resultado a partir das mesmas informações disponíveis na própria rede. Por isso, um contrato inteligente não pode simplesmente consultar uma API externa para descobrir, por exemplo, o preço atual de uma ação, o valor de uma moeda ou quanto dinheiro existe em uma conta bancária.
Essa limitação é conhecida como oracle problem. Um contrato que depende de uma informação externa precisa receber essa informação por meio de uma infraestrutura intermediária capaz de levá-la para dentro da blockchain.
Em aplicações financeiras, isso aparece em situações bastante concretas. Um protocolo de crédito pode precisar saber o preço de um ativo utilizado como garantia. Um contrato envolvendo câmbio pode precisar consultar uma taxa de conversão. Um ativo tokenizado pode precisar receber informações sobre seu valor patrimonial ou sobre as reservas que dão suporte à sua representação digital.
O problema, portanto, não é simplesmente obter um dado, mas obter um dado confiável. Se um contrato depender de uma única fonte centralizada e essa fonte fornecer uma informação incorreta ou ficar indisponível, toda a lógica financeira construída sobre ela poderá ser afetada.
As redes de oráculos descentralizados procuram reduzir esse risco agregando informações provenientes de múltiplas fontes e operadores independentes antes de disponibilizá-las aos contratos inteligentes. A Chainlink utiliza esse modelo em seus Data Feeds, nos quais diferentes fontes e nós participam da formação dos dados entregues on-chain.
Para a Arc, essa camada é especialmente relevante porque sua proposta envolve transformar ativos financeiros e operações tradicionais em processos programáveis. Quanto maior a complexidade dessas aplicações, maior tende a ser a necessidade de informações externas confiáveis.
Chainlink Scale e a integração com a Arc
O Chainlink Scale é um programa criado para ampliar o acesso de diferentes redes à infraestrutura da Chainlink. No caso da Arc, a integração foi anunciada em 2026 como parte da preparação da blockchain para aplicações financeiras institucionais.
A participação da Arc no Scale disponibiliza aos desenvolvedores uma série de serviços de infraestrutura da Chainlink, incluindo CCIP, Data Feeds, Data Streams e Proof of Reserve. Isso não significa que todos os aplicativos construídos na Arc utilizem automaticamente esses serviços. A integração cria, na prática, uma infraestrutura disponível para que desenvolvedores escolham quais componentes fazem sentido para suas aplicações.
Essa arquitetura complementar é importante porque permite separar responsabilidades. A Arc continua responsável pela execução dos contratos, consenso, validação das transações e finalização da própria rede, enquanto a Chainlink pode fornecer informações externas e mecanismos de comunicação necessários para determinados aplicativos.
O resultado é uma combinação entre uma blockchain especializada em infraestrutura financeira e uma camada de serviços que amplia sua capacidade de interagir com o mundo externo. Para aplicações institucionais, essa conexão pode ser tão importante quanto o desempenho da própria blockchain.
CCIP e interoperabilidade entre blockchains
O Chainlink Cross-Chain Interoperability Protocol, conhecido como CCIP, é a parte da integração voltada à comunicação entre diferentes redes blockchain.
Uma das dificuldades de um sistema financeiro baseado em múltiplas blockchains é que ativos e aplicações podem estar distribuídos em ambientes diferentes. Uma instituição pode manter determinados ativos em uma rede, utilizar outra para uma aplicação específica e precisar movimentar informações ou valor entre esses ambientes.
O CCIP foi desenvolvido para permitir mensagens e transferências de tokens entre redes compatíveis, criando uma camada padronizada de interoperabilidade. A própria Chainlink posiciona o protocolo como uma infraestrutura para comunicação e movimentação de ativos entre diferentes blockchains, inclusive em cenários que envolvem ambientes públicos e privados.
No contexto da Arc, isso pode ser particularmente relevante para ativos tokenizados e stablecoins. Uma aplicação financeira construída na Arc pode precisar interagir com ativos ou liquidez existentes em outras redes, e uma infraestrutura de interoperabilidade reduz a necessidade de construir uma solução diferente para cada conexão.
É importante, porém, distinguir interoperabilidade de uma simples “ponte”. O objetivo do CCIP é fornecer uma camada de mensagens e transferência com mecanismos próprios de segurança e controle, permitindo que aplicações construam fluxos cross-chain de maneira programável.
Essa capacidade pode ajudar a evitar que a Arc se transforme em um ambiente completamente isolado. Mesmo sendo uma Layer 1 própria, sua utilidade dentro de um sistema financeiro mais amplo depende também de sua capacidade de interagir com outras redes.
Data Feeds, Data Streams e Proof of Reserve
Os diferentes serviços de dados da Chainlink atendem a necessidades distintas. Os Data Feeds são voltados principalmente à disponibilização de dados de referência, como preços de ativos e taxas de câmbio, para contratos inteligentes. Eles utilizam múltiplas fontes e operadores para produzir informações agregadas que podem ser consumidas on-chain.
Os Data Streams, por sua vez, foram projetados para aplicações que precisam de dados de mercado com baixa latência e maior frequência de atualização. Esse tipo de infraestrutura pode ser relevante para aplicações financeiras sensíveis ao tempo, como determinados mercados de derivativos e outros produtos que dependem de informações atualizadas continuamente.
Já o Proof of Reserve possui uma função diferente. Em vez de informar o preço de um ativo, ele busca verificar informações relacionadas às reservas que dão suporte a determinados ativos digitais. A infraestrutura pode conectar informações de reservas externas à blockchain e disponibilizá-las para contratos inteligentes, permitindo inclusive que determinadas regras sejam executadas automaticamente quando os níveis de garantia não atendem aos critérios estabelecidos.
Essa última funcionalidade possui particular importância para a tokenização de ativos. Um token que representa um ativo financeiro ou uma reserva externa não depende apenas da existência do token na blockchain; sua confiabilidade também está relacionada à existência e à qualidade do ativo que ele representa.
Dessa maneira, Data Feeds, Data Streams e Proof of Reserve podem desempenhar funções diferentes dentro de uma mesma aplicação: um fornece preços, outro pode fornecer dados de mercado de baixa latência e o terceiro pode ajudar a verificar a existência das reservas que sustentam determinado ativo.
Oráculos como infraestrutura para aplicações institucionais
Para aplicações financeiras institucionais, os oráculos deixam de ser apenas uma ferramenta utilizada por protocolos de finanças descentralizadas e passam a funcionar como uma camada de infraestrutura para conectar sistemas on-chain e off-chain.
Imagine, por exemplo, um fundo tokenizado cuja representação digital precisa estar associada a informações sobre seu valor patrimonial. Ou uma operação de crédito que utiliza um ativo tokenizado como garantia e precisa acompanhar seu preço de mercado. Ou ainda uma stablecoin cujo processo de emissão depende de verificações sobre suas reservas.
Em todos esses casos, a blockchain sozinha consegue executar as regras, mas precisa receber informações externas confiáveis para saber quando e como executá-las. É justamente essa função que a infraestrutura de oráculos procura desempenhar.
Essa conexão também é importante para a visão da Arc como infraestrutura para mercados de capitais. A Circle posiciona a rede como uma possível base para ativos financeiros tokenizados, incluindo ações, renda fixa, commodities e outros instrumentos. Quanto mais esses ativos dependerem de informações externas para precificação, liquidação, garantias ou verificação de reservas, mais importante será a existência de mecanismos confiáveis de entrada de dados.
Nesse sentido, a integração com a Chainlink complementa a arquitetura da Arc. A Arc fornece a infraestrutura blockchain sobre a qual as aplicações são executadas, enquanto serviços como CCIP e os diferentes produtos de dados podem fornecer conexões com outras redes e com informações que existem fora da blockchain.
O ponto fundamental é que uma infraestrutura financeira on-chain não pode funcionar como uma ilha. Para representar de maneira útil o mundo financeiro real, ela precisa ser capaz de receber dados externos, verificar informações, interagir com outras redes e transformar esses dados em condições que contratos inteligentes possam processar. A integração entre Arc e Chainlink procura justamente preencher essa camada de conectividade.
Arc e Inteligência Artificial
A expansão dos agentes de inteligência artificial cria uma nova questão para a infraestrutura financeira: se softwares forem capazes de tomar decisões, executar tarefas e interagir autonomamente com outros serviços, eles também precisarão de mecanismos para movimentar valor.
É nesse ponto que blockchain e stablecoins podem assumir uma função diferente da tradicional.
A Circle vem desenvolvendo essa visão por meio do Circle Agent Stack, uma infraestrutura que permite a agentes de IA manter ativos, descobrir serviços e realizar pagamentos programaticamente. A Arc se encaixa nessa estratégia ao oferecer uma blockchain projetada para operações financeiras com stablecoins, baixa latência e execução programável.
A aproximação entre agentes de IA e infraestrutura financeira
Um agente de IA tradicional pode analisar informações, gerar conteúdo ou executar determinadas tarefas, mas normalmente não possui uma forma própria de participar diretamente de uma transação econômica. Quando uma tarefa exige pagamento, é necessário introduzir uma pessoa ou um sistema intermediário responsável pela operação.
A combinação entre agentes de IA, stablecoins e blockchain pode alterar esse modelo. Um agente pode receber uma carteira com regras previamente definidas, consultar serviços, pagar por dados ou APIs, receber valores e executar transações sem que cada etapa precise de uma intervenção humana.
O conceito é conhecido como agentic economy: uma economia na qual softwares autônomos não apenas produzem informações, mas também participam de fluxos econômicos programáveis. A Circle posiciona o USDC como uma unidade de valor adequada para esse ambiente porque pode ser movimentada digitalmente, de forma contínua e programática.
Para uma blockchain como a Arc, essa tendência é especialmente relevante. Uma rede com finalização rápida, taxas previsíveis, contratos inteligentes e stablecoin como ativo de gás fornece características que podem ser úteis para aplicações em que máquinas precisam executar muitas operações financeiras pequenas e rápidas.
O objetivo, portanto, não é simplesmente colocar inteligência artificial dentro da blockchain. É permitir que agentes de software utilizem a infraestrutura financeira on-chain como uma camada operacional para executar tarefas econômicas.
Claude Agent SDK e o desenvolvimento sobre Arc
A relação entre Arc e inteligência artificial também aparece no próprio processo de desenvolvimento do ecossistema. Durante a fase de testnet, a Circle destacou o uso do Claude Agent SDK, da Anthropic, como parte das ferramentas utilizadas por desenvolvedores que experimentavam a construção sobre Arc.
Esse tipo de integração mostra uma mudança na forma como aplicações blockchain podem ser desenvolvidas. Em vez de depender exclusivamente de ferramentas tradicionais de desenvolvimento, agentes de IA podem auxiliar na criação, teste, documentação e interação com contratos e serviços da rede.
É importante, entretanto, não interpretar essa integração como uma característica nativa do protocolo Arc. O Claude Agent SDK é uma ferramenta utilizada no processo de desenvolvimento de aplicações e agentes; ele não constitui o mecanismo de consenso, execução ou segurança da blockchain.
A relação é melhor compreendida como uma camada de desenvolvimento: a Arc fornece a infraestrutura on-chain, enquanto ferramentas de IA podem ajudar desenvolvedores e agentes a interagir com essa infraestrutura.
A Circle também vem disponibilizando skills, CLI e documentação orientadas a agentes para simplificar esse tipo de interação.
Isso cria uma combinação interessante entre duas infraestruturas diferentes. De um lado está a blockchain, responsável pela execução determinística das operações financeiras. Do outro está o agente, responsável por interpretar objetivos, escolher ações e utilizar as ferramentas disponíveis.
Circle Agent Stack e carteiras programáveis
O Circle Agent Stack representa a parte mais concreta dessa estratégia. Lançado em maio de 2026, o conjunto inicial inclui Agent Wallets, Agent Marketplace, Circle CLI, nanopagamentos e Circle Skills. A proposta é fornecer aos agentes os componentes necessários para participar de transações econômicas de maneira programática.
As Agent Wallets são especialmente importantes porque dão ao agente uma forma controlada de manter e movimentar ativos. Elas permitem definir políticas de gasto, limites por serviço, permissões por contrato ou blockchain e outras restrições antes que o agente possa executar transações.
Essa arquitetura procura resolver um dos principais problemas de segurança da automação financeira: um agente não deveria receber simplesmente uma chave privada irrestrita e ter liberdade para movimentar qualquer quantia. Em vez disso, a carteira funciona como uma camada de controle entre a capacidade de decisão do agente e a execução efetiva da transação.
O Agent Stack também permite que agentes descubram serviços por meio de um marketplace e realizem pagamentos utilizando USDC. A infraestrutura inclui ainda nanopagamentos destinados a operações de pequeno valor e alta frequência.
Embora o Agent Stack seja apresentado pela Circle como uma infraestrutura independente de blockchain e protocolo, ele complementa diretamente a visão da Arc. Uma blockchain financeira fornece o ambiente para execução e liquidação, enquanto o Agent Stack fornece ferramentas para que agentes possam interagir com serviços financeiros de maneira programática.
Agentes de IA para pagamentos e operações financeiras
Um dos casos de uso mais diretos dessa combinação é o pagamento automático por serviços digitais.
Imagine um agente responsável por executar uma determinada tarefa. Para concluí-la, ele precisa consultar uma API, adquirir dados, utilizar capacidade computacional ou contratar outro serviço especializado. Em uma arquitetura tradicional, o pagamento seria realizado por uma pessoa ou por um sistema previamente configurado.
Em um ambiente de agentes, o próprio software pode identificar o serviço, verificar seu custo, utilizar uma carteira com orçamento limitado e efetuar o pagamento. A Circle já demonstra esse modelo com o Agent Stack, permitindo que agentes descubram serviços e paguem por eles em USDC.
A blockchain pode atuar como camada de liquidação dessas operações. Em vez de depender de sistemas de pagamento construídos especificamente para cada serviço, o agente pode utilizar uma infraestrutura comum de ativos digitais e contratos inteligentes.
Esse modelo também pode ser aplicado a operações mais complexas. Um agente poderia, por exemplo, receber uma tarefa de gerenciamento de caixa, consultar diferentes fontes de dados, verificar condições previamente estabelecidas e executar transferências dentro dos limites autorizados.
Nesse cenário, a inteligência artificial não substitui a infraestrutura financeira. Ela funciona como uma camada de decisão que utiliza essa infraestrutura para transformar decisões programáticas em ações econômicas verificáveis.
Potenciais aplicações em tesouraria, compliance e FX
A combinação entre Arc, stablecoins e agentes de IA abre possibilidades particularmente interessantes para operações financeiras que envolvem muitas decisões repetitivas.
Na tesouraria corporativa, agentes poderiam monitorar saldos, necessidades de liquidez e obrigações futuras e, dentro de políticas previamente estabelecidas, coordenar determinadas movimentações de recursos. A velocidade da liquidação on-chain poderia permitir que essas operações fossem executadas continuamente, em vez de depender exclusivamente de horários bancários.
No compliance, agentes poderiam auxiliar na análise de transações, aplicação de regras e identificação de situações que exigem revisão humana. Nesse caso, a inteligência artificial atuaria como uma camada de análise, enquanto as regras financeiras e os controles de execução permaneceriam definidos pelo sistema responsável pela operação.
No câmbio, agentes poderiam acompanhar condições de mercado e solicitar cotações ou executar operações dentro de parâmetros autorizados. A existência de infraestrutura como o StableFX, combinada com a programabilidade dos contratos e carteiras, cria uma base sobre a qual esse tipo de automação pode ser construído.
Esses exemplos devem ser entendidos como possibilidades de arquitetura, e não como funcionalidades nativas que a Arc automaticamente executa. A existência de uma blockchain programável e de ferramentas para agentes permite construir essas aplicações, mas cada uma depende de desenvolvedores, instituições, regras de negócio, controles de risco e integrações adicionais.
Os limites atuais entre capacidade potencial e funcionalidade já disponível
A aproximação entre Arc e inteligência artificial é promissora, mas exige cuidado para não transformar possibilidades em funcionalidades que ainda não existem.
O Circle Agent Stack já oferece ferramentas concretas para agentes manterem ativos, realizarem pagamentos e interagirem com serviços. As Agent Wallets possuem políticas de gasto e controles de execução, e a Circle já demonstrou agentes capazes de utilizar USDC para pagar serviços de forma autônoma.
Isso, porém, é diferente de afirmar que a Arc possui agentes financeiros autônomos operando nativamente dentro de seu protocolo. A Arc continua sendo uma blockchain: consenso, execução, liquidação e contratos inteligentes permanecem separados da camada de inteligência artificial.
Da mesma forma, aplicações como tesouraria autônoma, compliance automatizado ou operações de câmbio conduzidas por agentes dependem de sistemas construídos sobre essa infraestrutura. A IA pode interpretar informações e decidir quais ações solicitar, mas a execução precisa continuar limitada pelas permissões, políticas e controles definidos pelos responsáveis pela aplicação.
Essa distinção é particularmente importante no ambiente financeiro. Um agente pode ser capaz de raciocinar e executar tarefas, mas isso não significa que suas decisões sejam automaticamente corretas ou adequadas para qualquer situação. A própria documentação da Circle estabelece que os agentes operam dentro das permissões definidas pelos usuários e que as transações podem ocorrer sem revisão humana em tempo real.
A verdadeira importância da Arc nesse cenário está, portanto, menos em possuir uma “IA própria” e mais em oferecer uma infraestrutura financeira que pode ser utilizada por sistemas inteligentes. Se agentes de software realmente se tornarem participantes relevantes da economia digital, eles precisarão de uma camada para armazenar valor, efetuar pagamentos, trocar ativos e liquidar operações.
A combinação entre agentes de IA, stablecoins, carteiras programáveis e blockchains especializadas representa uma possível evolução dessa infraestrutura. A Arc pretende ocupar justamente uma parte dessa camada financeira, enquanto o Agent Stack fornece ferramentas para transformar agentes de software em participantes programáveis desse novo ambiente econômico.
O Ecossistema de Desenvolvimento da Arc
Uma blockchain voltada ao mercado institucional precisa não apenas de uma arquitetura capaz de executar transações com rapidez, mas também de um ambiente no qual desenvolvedores consigam construir aplicações sem precisar começar do zero. Nesse aspecto, a Arc adota uma estratégia de compatibilidade com o ecossistema Ethereum.
A rede utiliza uma arquitetura compatível com a EVM e a execução baseada no Reth, permitindo que desenvolvedores utilizem Solidity, ferramentas conhecidas do ecossistema Ethereum e bibliotecas amplamente utilizadas para criar contratos e aplicações. Ao mesmo tempo, Rust ocupa uma posição importante na infraestrutura interna da rede, especialmente por ser a linguagem utilizada pelo Reth e pelo desenvolvimento de componentes de alto desempenho.
Essa combinação procura reduzir a barreira de entrada para desenvolvedores, permitindo que a Arc aproveite um ecossistema de software já consolidado enquanto mantém uma infraestrutura própria voltada às necessidades de sua Layer 1.
Solidity e contratos inteligentes
A principal linguagem para desenvolvimento de contratos inteligentes na Arc é o Solidity, a mesma utilizada amplamente no ecossistema Ethereum.
Isso é possível porque a Arc é compatível com a Ethereum Virtual Machine (EVM). Um contrato escrito em Solidity pode, portanto, utilizar os padrões e modelos de programação conhecidos por desenvolvedores de Ethereum, desde que sejam respeitadas as características específicas da rede Arc.
Essa compatibilidade é particularmente importante para uma blockchain nova. Em vez de criar uma linguagem própria e exigir que os desenvolvedores aprendam uma nova sintaxe e um novo conjunto de ferramentas, a Arc permite utilizar conhecimentos já existentes.
Contratos inteligentes podem ser empregados para criar tokens, sistemas de pagamento, aplicações financeiras, mecanismos de liquidação, protocolos de crédito e outras aplicações que dependam de lógica executada diretamente na blockchain.
No contexto institucional, isso permite que regras financeiras sejam transformadas em código. Uma operação de liquidação, por exemplo, pode ser condicionada à ocorrência de determinadas condições, enquanto um token pode possuir regras específicas para emissão, transferência ou utilização como garantia.
A utilização do Solidity também facilita a integração com bibliotecas, padrões de tokens e ferramentas desenvolvidas ao longo de anos para o ecossistema EVM.
EVM e compatibilidade com ferramentas Ethereum
A compatibilidade com a Ethereum Virtual Machine é um dos principais mecanismos utilizados pela Arc para facilitar a entrada de desenvolvedores.
A EVM funciona como o ambiente de execução dos contratos inteligentes. Em termos práticos, isso significa que aplicações desenvolvidas segundo os padrões do ecossistema Ethereum podem ser adaptadas para funcionar na Arc sem que seja necessário criar uma arquitetura de programação completamente diferente.
Essa compatibilidade também se estende ao conjunto de ferramentas utilizadas para desenvolver, testar e interagir com contratos. Frameworks como Hardhat e Foundry, além de bibliotecas como Viem, podem ser utilizados no desenvolvimento de aplicações compatíveis com a rede.
Para o ecossistema da Arc, essa característica possui uma consequência estratégica importante: a rede pode aproveitar uma comunidade de desenvolvedores que já conhece Solidity, EVM e as ferramentas Ethereum.
Isso reduz o chamado developer friction, ou seja, o esforço necessário para que um desenvolvedor passe a construir sobre uma nova blockchain. Quanto menor esse atrito, maior tende a ser a facilidade para experimentar aplicações e transferir projetos existentes para o novo ambiente.
A Arc, portanto, não tenta competir pelo desenvolvimento de aplicações criando um universo tecnológico completamente isolado. Sua estratégia é utilizar a compatibilidade com a EVM como uma ponte entre sua infraestrutura especializada e o ecossistema de desenvolvimento já estabelecido.
Hardhat, Foundry e outras ferramentas de desenvolvimento
A compatibilidade com a EVM também permite que desenvolvedores utilizem ferramentas consolidadas para o ciclo de desenvolvimento de contratos inteligentes.
O Hardhat é um framework utilizado para desenvolver, testar e depurar aplicações baseadas em Ethereum e outras redes compatíveis com EVM. Ele permite criar ambientes de desenvolvimento, executar testes automatizados e interagir com contratos durante o processo de construção da aplicação.
O Foundry segue uma abordagem diferente e oferece um conjunto de ferramentas voltadas ao desenvolvimento e teste de contratos inteligentes. Sua implementação é construída em Rust e inclui ferramentas como Forge, utilizada para compilação e testes, e Cast, utilizada para interagir com contratos e redes.
Além desses frameworks, desenvolvedores podem utilizar bibliotecas de interação com a blockchain, como Viem, para construir aplicações em JavaScript ou TypeScript. Essas bibliotecas permitem que interfaces, servidores e outros sistemas de software consultem dados da rede e enviem transações para contratos inteligentes.
O resultado é um ambiente relativamente familiar para quem já trabalha com aplicações EVM. O desenvolvedor pode utilizar ferramentas conhecidas para escrever o contrato, executar testes localmente, fazer o deploy e posteriormente conectar a aplicação a uma interface ou serviço externo.
Essa reutilização de ferramentas é especialmente relevante para a Arc porque o objetivo não é apenas permitir que novos projetos sejam criados, mas também facilitar a adaptação de aplicações e infraestrutura existentes para uma rede voltada ao mercado financeiro.
Rust na infraestrutura da rede
Se Solidity ocupa uma posição central no desenvolvimento de contratos, Rust aparece principalmente na infraestrutura que executa esses contratos.
A Arc utiliza o Reth, um cliente de execução Ethereum desenvolvido em Rust. O Reth é responsável pela execução das transações e dos contratos compatíveis com a EVM, formando uma parte importante da camada de execução da rede.
A escolha de Rust é significativa porque a linguagem é conhecida por oferecer alto desempenho e segurança de memória sem depender de um coletor de lixo tradicional. Essas características fazem com que ela seja utilizada em diferentes projetos de infraestrutura blockchain que precisam processar grandes volumes de operações de maneira eficiente.
Na Arc, portanto, é possível distinguir duas camadas de programação. O desenvolvedor de uma aplicação pode escrever um contrato inteligente em Solidity, enquanto componentes fundamentais da infraestrutura responsável por executar esse contrato são desenvolvidos em Rust.
Essa separação é importante porque a linguagem utilizada pelo protocolo não precisa ser a mesma linguagem utilizada pelos desenvolvedores de aplicações. A Arc pode utilizar Rust internamente para construir componentes de infraestrutura e, ao mesmo tempo, oferecer uma experiência de desenvolvimento baseada em Solidity e EVM.
JavaScript, TypeScript e Python no desenvolvimento de aplicações e agentes
O ecossistema de desenvolvimento da Arc não se limita às linguagens utilizadas diretamente nos contratos ou na infraestrutura da blockchain.
JavaScript e TypeScript são particularmente importantes na construção de aplicações que interagem com contratos inteligentes. Interfaces web, servidores, APIs e agentes de software podem utilizar essas linguagens para consultar informações da rede, construir transações e interagir com contratos por meio de bibliotecas compatíveis com EVM.
Isso permite separar a lógica on-chain da lógica executada fora da blockchain. O contrato pode cuidar das regras que precisam ser verificadas de maneira determinística, enquanto um servidor ou aplicação externa pode administrar interfaces, autenticação, processamento de dados e outras tarefas.
Python também pode ser utilizado no desenvolvimento de aplicações, automações e sistemas que interagem com redes blockchain. Sua presença é particularmente relevante em ambientes que envolvem análise de dados, automação e inteligência artificial.
No contexto da estratégia da Circle para agentes de IA, essa flexibilidade ganha importância. Agentes podem combinar modelos de inteligência artificial, serviços externos e carteiras programáveis, utilizando a infraestrutura blockchain apenas para as operações que precisam ser registradas e liquidadas on-chain.
Assim, diferentes linguagens podem coexistir no mesmo sistema: Solidity para contratos inteligentes, Rust na infraestrutura de execução, JavaScript ou TypeScript para aplicações e interfaces e Python em determinadas aplicações de automação, dados e inteligência artificial.
O papel dos SDKs na expansão do ecossistema
Mesmo com uma blockchain compatível com EVM, a facilidade de desenvolvimento não depende apenas da linguagem utilizada. Desenvolvedores também precisam de bibliotecas, APIs, SDKs e ferramentas que simplifiquem a comunicação entre suas aplicações e a infraestrutura da rede.
Os SDKs, ou Software Development Kits, cumprem justamente essa função. Eles reúnem componentes que permitem acessar determinadas funcionalidades sem que o desenvolvedor precise implementar individualmente toda a lógica necessária para interagir com a infraestrutura.
No ecossistema da Circle, essa camada é particularmente importante porque a Arc faz parte de uma infraestrutura mais ampla que inclui stablecoins, carteiras, pagamentos, contratos, serviços de dados e ferramentas voltadas a agentes de IA.
Um desenvolvedor pode, por exemplo, utilizar uma biblioteca ou SDK para criar uma carteira, consultar saldos, preparar uma transação ou integrar pagamentos em USDC sem precisar construir toda essa infraestrutura diretamente.
Esse modelo também ajuda a aproximar diferentes tipos de desenvolvedores. Um especialista em contratos inteligentes pode trabalhar principalmente com Solidity e EVM, enquanto um desenvolvedor de aplicações pode utilizar JavaScript ou TypeScript e consumir serviços por meio de APIs e SDKs. Da mesma forma, aplicações de inteligência artificial podem utilizar ferramentas específicas para conectar agentes a carteiras e serviços financeiros.
Para a Arc, os SDKs funcionam, portanto, como uma camada de abstração entre a complexidade da infraestrutura blockchain e as aplicações que precisam utilizá-la. Quanto mais simples for essa integração, menor tende a ser o esforço necessário para transformar a capacidade técnica da rede em produtos efetivamente utilizados.
Essa é uma característica importante da estratégia da Circle: a Arc não depende apenas de oferecer uma blockchain rápida e compatível com EVM. Seu potencial de expansão também depende da existência de um ecossistema de ferramentas capaz de transformar essa infraestrutura em aplicações financeiras, sistemas de pagamento e serviços utilizados por empresas e instituições.
Arc vs. Blockchains Generalistas
Comparar a Arc com blockchains generalistas exige olhar além de métricas como velocidade ou capacidade de processamento. Redes como Ethereum e outras Layer 1 de propósito geral foram construídas para suportar uma grande variedade de aplicações, enquanto a Arc parte de um conjunto mais específico de requisitos relacionados a pagamentos, stablecoins, câmbio, ativos tokenizados e mercados financeiros.
Essa diferença de propósito influencia praticamente todas as decisões arquiteturais da Arc. O uso do USDC como ativo de gás, a validação permissionada, a finalização determinística em subsegundos e a preocupação com privacidade e infraestrutura institucional não são características isoladas, mas partes de uma mesma estratégia.
A Arc procura, portanto, trocar parte da generalidade encontrada em uma Layer 1 tradicional por uma infraestrutura mais especializada para operações financeiras. Isso não significa necessariamente que uma abordagem seja superior à outra. Significa que elas foram projetadas para resolver problemas diferentes.
O que diferencia a Arc de uma Layer 1 tradicional
Uma Layer 1 generalista normalmente procura oferecer uma infraestrutura suficientemente flexível para acomodar diferentes tipos de aplicações. Contratos financeiros, jogos, NFTs, aplicações sociais, infraestrutura DeFi e outros sistemas podem coexistir na mesma rede.
A Arc também possui compatibilidade com a EVM e permite o desenvolvimento de diferentes aplicações, mas sua arquitetura foi concebida desde o início em torno de necessidades financeiras específicas. A Circle descreve a rede como uma Layer 1 criada para stablecoin finance, com recursos direcionados a pagamentos, câmbio, ativos tokenizados e operações financeiras institucionais.
Essa orientação influencia o desenho econômico e técnico da rede. Em vez de começar com um token nativo utilizado principalmente para pagar taxas e proteger uma rede aberta de validadores, a Arc utiliza o USDC como ativo de gás e inicialmente adota um conjunto permissionado de validadores.
Outro exemplo é a prioridade dada à finalização determinística e à previsibilidade das taxas. Em aplicações financeiras, saber rapidamente quando uma transação está definitivamente liquidada e quanto custará sua execução pode ser mais importante do que maximizar a variedade de aplicações possíveis.
A Arc pode ser entendida, portanto, como uma Layer 1 especializada, enquanto uma blockchain generalista procura funcionar como uma plataforma mais ampla. A diferença está menos na capacidade de executar contratos inteligentes e mais naquilo que cada arquitetura considera prioritário.
USDC como gás versus tokens nativos convencionais
Em muitas blockchains, o token nativo possui uma função dupla: é utilizado para pagar taxas de transação e participa, de alguma maneira, da segurança ou governança da rede. Como seu preço de mercado pode variar significativamente, o custo econômico de executar uma transação também pode se tornar menos previsível.
A Arc adota uma abordagem diferente ao utilizar o USDC como ativo para pagamento do gás. Dessa maneira, as taxas são denominadas em uma unidade de valor projetada para manter paridade com o dólar, em vez de depender diretamente do preço de mercado de um token nativo.
Essa escolha possui uma consequência prática para aplicações financeiras. Uma empresa pode estimar o custo de uma operação em uma unidade monetária relativamente estável, sem precisar adquirir previamente um token volátil apenas para pagar taxas.
A decisão também reforça a função do USDC dentro da arquitetura da Arc. Ele não é apenas um ativo que pode circular na rede: participa diretamente do mecanismo econômico utilizado para executar transações.
O token ARC, por outro lado, possui uma função diferente na arquitetura proposta. A Circle o apresenta como um ativo de coordenação que poderá participar da governança econômica e da segurança da rede à medida que o modelo de validação evoluir. O ARC, portanto, não substitui o USDC como unidade de pagamento das transações.
Essa separação entre ativo utilizado para liquidar taxas e ativo destinado à coordenação da rede é uma das características que diferenciam a proposta econômica da Arc de muitas Layer 1 tradicionais.
Validadores permissionados versus validação aberta
Outro contraste importante está no modelo de validação.
Em uma blockchain com validação aberta, qualquer participante que cumpra os requisitos técnicos e econômicos da rede pode, dependendo do mecanismo de consenso, participar diretamente da validação. Esse modelo busca maximizar a descentralização e reduzir a necessidade de autorização de uma entidade central.
A Arc iniciou sua arquitetura com um modelo diferente: os validadores são permissionados. Isso significa que a participação na validação da rede depende de critérios de elegibilidade e autorização.
Essa escolha está diretamente relacionada ao público que a Circle pretende atender. Instituições financeiras podem ter requisitos específicos de governança, responsabilidade operacional, segurança e gestão de risco que são mais difíceis de conciliar com um conjunto completamente aberto e anônimo de validadores.
O modelo permissionado também permite maior previsibilidade sobre quem participa da infraestrutura responsável pela confirmação das transações. Isso pode ser relevante para instituições sujeitas a processos internos de auditoria, controles e gestão de risco.
Por outro lado, existe um custo evidente: a validação permissionada reduz o grau de abertura e descentralização existente em redes nas quais qualquer participante elegível pode ingressar. A própria Circle prevê uma possível evolução futura do modelo, com transição de Proof-of-Authority para mecanismos de Proof-of-Stake ou delegated Proof-of-Stake permissionados.
A diferença, portanto, não é simplesmente técnica. Ela representa uma escolha entre diferentes prioridades: abertura e descentralização máxima de um lado; controle, previsibilidade e requisitos institucionais do outro.
Finalidade determinística e previsibilidade
A finalidade de uma transação representa o momento em que ela pode ser considerada definitivamente confirmada. Para aplicações financeiras, essa propriedade possui enorme importância.
Em alguns sistemas blockchain, uma transação pode inicialmente ser incluída em um bloco e posteriormente depender de confirmações adicionais para que os participantes considerem suficientemente baixo o risco de reorganização da cadeia.
A Arc utiliza um mecanismo de consenso BFT baseado no Malachite que busca proporcionar finalização determinística em subsegundos. Isso significa que, uma vez alcançada a finalidade de acordo com as regras do consenso, não é necessário aguardar uma quantidade indefinida de blocos adicionais para considerar a operação definitivamente finalizada.
Durante a testnet, a Circle reportou tempos médios de finalização próximos de 0,5 segundo, enquanto benchmarks específicos da arquitetura demonstraram finalização inferior a 350 milissegundos sob determinadas condições de teste.
Essa previsibilidade é particularmente útil em operações que envolvem várias etapas. Em uma liquidação financeira, por exemplo, uma segunda ação pode depender do fato de a primeira já ter sido definitivamente concluída. Quanto menor e mais previsível for esse intervalo, mais facilmente o processo pode ser automatizado.
Isso não significa que a Arc seja simplesmente “mais rápida” que todas as outras blockchains. Desempenho depende das condições da rede, configuração dos validadores, carga e características do benchmark. A diferença mais relevante está na tentativa de combinar baixa latência com finalidade determinística, uma característica especialmente adequada para operações que precisam de certeza sobre o estado da liquidação.
Privacidade para operações financeiras
Blockchains públicas tradicionais possuem uma característica que é extremamente útil para auditoria e verificabilidade, mas pode ser problemática para determinadas operações institucionais: a transparência.
Quando valores, endereços e transações ficam publicamente observáveis, torna-se possível analisar o comportamento financeiro de determinados participantes. Para aplicações abertas, essa propriedade pode ser desejável. Para bancos, fundos e empresas, entretanto, determinados detalhes de uma operação podem precisar permanecer confidenciais.
A Arc foi projetada para oferecer privacidade opt-in, permitindo que aplicações utilizem mecanismos destinados a proteger determinadas informações sem transformar toda a rede em um ambiente completamente privado.
A proposta inclui recursos como proteção dos valores envolvidos em determinadas transações e view keys, que podem permitir divulgação seletiva das informações a participantes autorizados. A arquitetura de privacidade também prevê a utilização de tecnologias criptográficas adicionais à medida que o sistema evoluir.
Essa abordagem tenta resolver um problema específico: instituições precisam de confidencialidade, mas também podem precisar demonstrar determinadas informações a auditores, reguladores, contrapartes ou outras partes autorizadas.
A privacidade, nesse caso, não é apresentada como sinônimo de invisibilidade absoluta. O objetivo é criar mecanismos de confidencialidade controlada e divulgação seletiva, mantendo a possibilidade de verificações quando necessárias.
O equilíbrio entre abertura, controle e requisitos institucionais
Talvez a característica mais interessante da Arc seja justamente o equilíbrio que ela tenta estabelecer entre conceitos que tradicionalmente entram em tensão no universo blockchain.
De um lado, a Arc é apresentada como uma blockchain aberta para desenvolvedores. Ela utiliza EVM, Solidity e ferramentas do ecossistema Ethereum, permitindo que diferentes equipes construam aplicações e contratos inteligentes sobre a rede.
Do outro, a participação como validador é inicialmente permissionada. A rede também incorpora mecanismos de privacidade e foi desenhada considerando requisitos de instituições financeiras, pagamentos e mercados de capitais.
Essa combinação cria um modelo intermediário. A camada de aplicação procura permanecer aberta, enquanto determinadas funções críticas da infraestrutura são submetidas a controles mais rígidos.
Essa escolha pode ser particularmente interessante para instituições que desejam utilizar tecnologia blockchain sem necessariamente aceitar todas as características de uma rede completamente permissionless. Bancos e empresas financeiras podem encontrar nesse modelo uma forma de obter programabilidade, liquidação on-chain e interoperabilidade sem abrir mão de determinados mecanismos de governança e controle.
Ao mesmo tempo, esse equilíbrio cria desafios. Quanto maior o controle sobre os participantes da infraestrutura, maior a distância em relação ao ideal de descentralização associado às blockchains públicas. E quanto mais a rede evolui em direção à abertura, mais complexas podem se tornar algumas das exigências de governança, segurança e conformidade que justificaram o modelo permissionado inicial.
A Arc representa, portanto, uma tentativa de construir uma terceira via entre dois extremos: nem uma infraestrutura financeira tradicional completamente centralizada, nem uma Layer 1 generalista que prioriza a participação aberta acima de requisitos institucionais específicos.
Seu sucesso dependerá justamente de conseguir transformar esse equilíbrio em uma vantagem real. A proposta da Circle é que instituições possam utilizar uma infraestrutura blockchain aberta para desenvolvimento e liquidação, mas com características de previsibilidade, controle, privacidade e governança mais próximas das necessidades do sistema financeiro.
É essa combinação que define a identidade técnica da Arc: uma blockchain que utiliza princípios e ferramentas do universo público e programável das criptomoedas, mas reorganizados em torno das exigências de uma economia financeira cada vez mais baseada em stablecoins e ativos tokenizados.
Os Desafios e Limitações da Arc
A proposta da Arc combina características pouco comuns em uma mesma blockchain: abertura para desenvolvedores, integração profunda com o ecossistema da Circle, validadores permissionados, stablecoins como base econômica e uma arquitetura voltada especificamente para aplicações financeiras.
Essa combinação pode oferecer vantagens para instituições, mas também cria desafios. Quanto mais a Arc depende de elementos específicos do ecossistema Circle, por exemplo, maior é a importância da própria Circle para o funcionamento econômico da rede. Da mesma forma, quanto mais a validação depende de participantes autorizados, maior é o desafio de demonstrar descentralização suficiente ao longo do tempo.
Além disso, existe uma diferença importante entre uma infraestrutura tecnicamente preparada para determinado mercado e uma infraestrutura que efetivamente conquistou adoção nesse mercado. A Arc chega à mainnet pública com participação institucional relevante, mas ainda precisará transformar essa infraestrutura e os projetos em desenvolvimento em utilização econômica recorrente.
Dependência do ecossistema da Circle
Uma das principais características da Arc é também uma de suas maiores dependências: a integração com a infraestrutura da Circle.
A Arc foi concebida para funcionar em conjunto com ativos e serviços como USDC, EURC, USYC, Circle Payments Network, StableFX, carteiras, ferramentas de contratos e soluções de interoperabilidade. Essa integração cria um ecossistema coerente, no qual diferentes componentes podem reforçar uns aos outros.
Por outro lado, isso significa que uma parte importante da proposta de valor da rede está relacionada à capacidade da Circle de continuar expandindo esses produtos, atraindo instituições e mantendo a liquidez dos ativos que sustentam esse ecossistema.
Essa relação não transforma necessariamente a Arc em uma rede fechada. A própria Circle apresenta a Arc como uma blockchain aberta e compatível com aplicações e participantes externos, além de afirmar que pretende manter uma postura multichain.
O desafio está em encontrar o equilíbrio entre aproveitar a força do ecossistema Circle e evitar uma dependência excessiva de uma única empresa. Se grande parte da atividade econômica da Arc estiver diretamente ligada aos produtos da Circle, a independência econômica da rede poderá ser menor do que a de uma Layer 1 cujo ecossistema possui múltiplos emissores, aplicações e fontes de liquidez independentes.
Essa questão também se relaciona ao efeito de rede. Quanto mais aplicações utilizarem Arc, maior poderá ser sua utilidade; mas, para atrair essas aplicações, a rede precisa inicialmente oferecer liquidez, usuários, infraestrutura e contrapartes suficientes. Construir esse ciclo é um dos desafios centrais de qualquer nova blockchain.
Centralização inicial da validação
A validação permissionada é uma das características que mais diferenciam a Arc de muitas blockchains públicas.
Na preparação para a mainnet pública, a Circle anunciou um grupo inicial de validadores que inclui instituições como BlackRock, DTCC, Galaxy, Mastercard, Visa, Standard Chartered e outras grandes organizações financeiras, além da própria Circle.
Esse modelo possui vantagens claras para o público institucional. Os participantes são identificáveis, existe uma estrutura de responsabilidade operacional e a rede pode estabelecer requisitos específicos para quem participa da infraestrutura de validação.
O problema é que isso também concentra uma função fundamental da blockchain em um conjunto limitado de participantes autorizados. A Arc pode ser pública e aberta para desenvolvedores sem possuir, por isso, o mesmo grau de descentralização na camada de consenso encontrado em redes nas quais qualquer participante que satisfaça os requisitos técnicos e econômicos pode ingressar.
Essa concentração inicial não é necessariamente um defeito acidental. Ela faz parte da proposta da Arc para atender instituições que valorizam governança, responsabilidade e controles operacionais. A própria Circle argumenta que um conjunto conhecido de validadores pode ser mais compatível com determinadas necessidades de gestão de risco e conformidade de instituições financeiras.
Ainda assim, permanece uma questão fundamental: quanto controle uma blockchain pode concentrar na camada de validação sem comprometer a confiança que pretende oferecer como infraestrutura aberta?
A resposta dependerá, em grande medida, da evolução futura do conjunto de validadores.
Desafios de descentralização progressiva
A Circle não apresenta o modelo inicial de validação da Arc como necessariamente definitivo. A estratégia prevê uma evolução progressiva da rede, incluindo maior distribuição dos validadores e uma possível transição do modelo inicial de Proof-of-Authority para mecanismos de Proof-of-Stake ou delegated Proof-of-Stake permissionados.
Isso cria uma trajetória interessante, mas também um desafio de execução.
Aumentar o número e a diversidade dos validadores pode fortalecer a distribuição do consenso, mas também torna mais complexas a coordenação, a governança e a definição dos critérios de participação. Uma rede destinada a instituições precisa encontrar participantes suficientemente confiáveis e tecnicamente capazes, sem transformar o processo de entrada em uma barreira excessivamente centralizada.
A própria Circle identifica a evolução do conjunto de validadores como uma das tarefas necessárias para transformar a Arc de uma rede de testes em uma infraestrutura de produção duradoura e governável.
Existe ainda uma questão econômica. Se o ARC vier a desempenhar um papel maior na segurança e na governança da rede, será necessário construir mecanismos de incentivos capazes de recompensar validadores e participantes sem comprometer a previsibilidade econômica que caracteriza a proposta da Arc.
Por isso, a descentralização da Arc deve ser entendida como um processo em evolução, e não como uma característica já completamente resolvida. A capacidade da Circle de executar essa transição será um dos fatores importantes para avaliar a maturidade da rede nos próximos anos.
Dependência do USDC e das políticas regulatórias
O uso do USDC como ativo de gás é uma das características mais originais da Arc, mas também cria uma dependência estrutural.
Grande parte da lógica econômica da rede foi construída em torno de uma stablecoin emitida pela própria Circle. O USDC funciona como unidade utilizada para pagar taxas e possui papel central nos fluxos de liquidação, pagamentos e liquidez que a Arc pretende suportar.
Isso cria uma vantagem enquanto o USDC continuar sendo amplamente utilizado: as instituições podem operar em uma unidade monetária familiar, sem precisar manter um token volátil exclusivamente para pagar taxas. Mas também significa que mudanças na circulação do USDC, na liquidez disponível ou nas condições regulatórias aplicáveis à stablecoin podem ter efeitos indiretos sobre o ecossistema da Arc.
A própria estratégia da Circle mostra como esses elementos estão interligados. A empresa busca ampliar o uso institucional do USDC, expandir acesso por meio de bancos e conectar a stablecoin a diferentes redes e aplicações.
Além disso, stablecoins operam dentro de ambientes regulatórios que continuam evoluindo em diferentes jurisdições. Regras sobre reservas, emissão, custódia, pagamentos e utilização institucional podem influenciar a maneira como empresas e instituições utilizam USDC e, consequentemente, a infraestrutura construída ao redor dele.
Isso não significa que mudanças regulatórias necessariamente prejudiquem a Arc. Regulamentações mais claras podem inclusive favorecer a adoção institucional. O ponto é que a Arc está inserida em um setor no qual infraestrutura tecnológica e política regulatória estão profundamente conectadas.
A competição com outras redes voltadas a stablecoins e instituições
A Arc também não chega a um mercado vazio.
Diversas blockchains já processam stablecoins em grande escala, enquanto outras redes estão desenvolvendo arquiteturas direcionadas a pagamentos, ativos tokenizados, mercados institucionais ou aplicações financeiras. Além disso, bancos e grandes instituições financeiras continuam desenvolvendo suas próprias infraestruturas blockchain e sistemas de liquidação.
A vantagem da Arc é a combinação específica de elementos que a Circle reúne: USDC como gás, integração com seu conjunto de produtos, finalização determinística, FX, privacidade, compatibilidade com EVM, interoperabilidade e uma rede de validadores institucionais.
Entretanto, essas características precisam gerar uma vantagem prática suficiente para convencer desenvolvedores e instituições a escolherem Arc em vez de utilizar redes já estabelecidas.
Esse desafio é ainda maior porque a própria Circle pretende manter o USDC amplamente disponível em múltiplas blockchains. Em outras palavras, a empresa precisa fazer a Arc crescer sem necessariamente retirar a liquidez do restante do ecossistema. A Circle afirma explicitamente que continua comprometida com as redes de terceiros nas quais o USDC já é utilizado.
Isso cria uma situação interessante: a Circle precisa que o USDC seja multichain para expandir seu alcance, mas também precisa que a Arc desenvolva um ecossistema suficientemente forte para justificar sua existência como infraestrutura própria.
A competição, portanto, não será determinada apenas por TPS ou velocidade. Liquidez, desenvolvedores, aplicações, integração com instituições, disponibilidade de ativos tokenizados, experiência de desenvolvimento e capacidade de conectar diferentes mercados serão igualmente importantes.
A diferença entre infraestrutura anunciada e adoção efetiva
Talvez este seja o desafio mais importante para avaliar a Arc no curto prazo.
Até setembro de 2026, a rede acumulou evidências relevantes durante sua fase de testes e passou a contar com mais de 100 participantes institucionais e do ecossistema, além de um grupo de grandes instituições anunciado como validadores fundadores. A Circle também divulgou integrações em desenvolvimento envolvendo tokenização, custódia, FX, pagamentos e ativos financeiros.
Esses indicadores são importantes porque demonstram interesse e atividade de desenvolvimento. Mas interesse não é o mesmo que adoção econômica em produção.
Uma instituição pode testar uma blockchain sem utilizá-la posteriormente para operações de grande escala. Um ativo pode ter sua integração anunciada sem que volumes significativos já estejam sendo liquidados na rede. Uma aplicação pode ser tecnicamente compatível com Arc sem possuir usuários suficientes para gerar um efeito de rede sustentável.
Essa distinção é particularmente importante no caso de iniciativas como o BUIDL, da BlackRock, e os planos de tokenização associados à DTCC. A Circle anunciou essas iniciativas como parte do ecossistema esperado para Arc, mas elas devem ser tratadas como integrações previstas ou em desenvolvimento, e não como evidência de que todos esses mercados já estejam operando em escala na rede.
O mesmo raciocínio vale para o próprio desempenho da testnet. Processar milhões de transações é uma demonstração importante de capacidade técnica, mas uma rede financeira de produção precisa demonstrar algo além de throughput: precisa sustentar liquidez, disponibilidade, segurança, governança, conformidade e demanda econômica real.
Por isso, a avaliação da Arc após a mainnet deverá observar não apenas quantas transações a rede consegue processar, mas quem está utilizando a infraestrutura, quais ativos estão circulando, quais aplicações possuem usuários reais e quanto valor econômico é efetivamente liquidado na rede.
Essa será a diferença entre uma blockchain tecnicamente bem projetada e uma infraestrutura financeira efetivamente adotada.
No fim, os desafios da Arc estão diretamente relacionados às suas próprias ambições. A Circle pretende transformar a rede em uma camada de coordenação para pagamentos, câmbio, tesouraria e mercados de capitais. Para isso, será necessário provar que a especialização financeira da Arc consegue produzir vantagens suficientes para superar os efeitos de rede das blockchains já estabelecidas e, ao mesmo tempo, construir um modelo de governança suficientemente distribuído para sustentar uma infraestrutura que pretende ser aberta e global.
O Que a Arc Pode Representar para o Futuro das Stablecoins?
A criação da Arc representa uma mudança importante na forma como a Circle parece enxergar o papel das stablecoins. Em vez de tratá-las apenas como ativos digitais utilizados dentro de mercados de criptomoedas, a empresa passou a construir uma infraestrutura na qual stablecoins podem funcionar como unidades de liquidação para pagamentos, câmbio, tesouraria, crédito e mercados de capitais.
Nesse contexto, a Arc pode ser interpretada como uma tentativa de responder a uma questão mais ampla: o que acontece quando o dinheiro digital deixa de ser apenas um ativo movimentado sobre blockchains e passa a ser a própria unidade econômica de uma infraestrutura financeira programável?
A resposta ainda está em construção. A mainnet pública da Arc está prevista para 16 de setembro de 2026, e muitos dos casos de uso institucionais anunciados pela Circle ainda precisam demonstrar utilização efetiva em escala. Ainda assim, a arquitetura da rede oferece uma visão bastante clara sobre a direção que a empresa pretende seguir.
Stablecoins como infraestrutura financeira
Durante grande parte da história das criptomoedas, stablecoins foram utilizadas principalmente como instrumentos de liquidez. Elas permitiam representar moedas fiduciárias dentro de ambientes blockchain, facilitando negociações, transferências e aplicações de finanças descentralizadas.
A proposta da Arc amplia esse conceito. Ao utilizar o USDC como ativo para pagamento do gás e como componente central da liquidação, a rede transforma uma stablecoin em parte da própria infraestrutura econômica da blockchain.
Isso muda a perspectiva sobre o papel desses ativos. Em vez de serem apenas tokens que circulam sobre uma infraestrutura independente, stablecoins podem funcionar como dinheiro programável dentro de uma infraestrutura financeira digital.
Essa evolução é relevante porque dinheiro possui funções muito mais amplas do que simplesmente servir como meio de troca. Ele também participa da liquidação de obrigações, da gestão de liquidez, da formação de preços e da transferência de valor entre diferentes participantes econômicos.
Quando essas funções são combinadas com contratos inteligentes, torna-se possível programar determinadas condições diretamente na infraestrutura financeira. Pagamentos podem ser condicionados à entrega de um ativo, garantias podem ser vinculadas a regras automatizadas e diferentes etapas de uma operação podem ser coordenadas sem depender exclusivamente de processos manuais.
A Arc representa uma tentativa de construir uma blockchain especificamente preparada para esse modelo. Seu objetivo não é simplesmente tornar o USDC mais rápido, mas criar um ambiente no qual stablecoins possam funcionar como uma camada econômica para diferentes serviços financeiros.
A convergência entre pagamentos, mercados de capitais e blockchain
Um dos aspectos mais relevantes da proposta da Arc é a aproximação entre segmentos financeiros que tradicionalmente funcionam em infraestruturas separadas.
Pagamentos, câmbio, custódia, crédito e mercados de capitais possuem sistemas próprios, diferentes participantes e processos distintos de compensação e liquidação. A blockchain introduz a possibilidade de representar parte desses elementos em uma infraestrutura programável comum.
Na visão da Circle, stablecoins podem atuar como uma camada de liquidação enquanto ativos financeiros também são tokenizados. Dessa maneira, uma mesma infraestrutura pode registrar a movimentação de dinheiro digital e a transferência de ativos representados digitalmente.
Esse modelo pode aproximar operações que atualmente exigem múltiplos sistemas. Uma transação envolvendo um ativo tokenizado, por exemplo, pode combinar o ativo financeiro, o pagamento em stablecoin, as regras de transferência e a liquidação em uma mesma sequência programável.
A Arc foi desenhada justamente para explorar essa convergência. Seu sistema de câmbio, a utilização de stablecoins, a compatibilidade com contratos inteligentes, a infraestrutura de dados e a integração com ativos tokenizados formam partes de uma mesma arquitetura.
Isso não significa que a blockchain eliminará automaticamente todas as estruturas existentes no sistema financeiro. Custódia, regulamentação, identidade, gestão de risco e diversos outros processos continuarão sendo necessários. A possível transformação está em conectar essas funções de maneira mais integrada e programável.
Se esse modelo alcançar escala, a blockchain poderá deixar de ocupar apenas uma posição periférica dentro dos mercados financeiros e passar a funcionar como uma camada de infraestrutura para operações que atualmente dependem de múltiplos sistemas.
Blockchains especializadas para diferentes setores
A criação da Arc também levanta uma questão mais ampla sobre o futuro das próprias blockchains.
Durante os primeiros anos do setor, muitas Layer 1 procuraram oferecer uma infraestrutura generalista capaz de suportar praticamente qualquer tipo de aplicação. Essa abordagem possui uma vantagem evidente: uma mesma rede pode reunir desenvolvedores, usuários, liquidez e diferentes categorias de aplicações.
Mas diferentes setores possuem requisitos diferentes.
Uma rede destinada a jogos pode priorizar determinadas características de escalabilidade e interação frequente. Uma infraestrutura para armazenamento de dados pode possuir outras necessidades. Mercados financeiros, por sua vez, podem priorizar finalização determinística, previsibilidade de custos, privacidade, interoperabilidade e mecanismos específicos de governança.
A Arc representa uma aposta nessa especialização vertical. Em vez de construir uma Layer 1 generalista e posteriormente adaptar suas características para instituições financeiras, a Circle começou pelo problema financeiro e projetou a infraestrutura em torno dele.
Esse modelo não significa necessariamente que o futuro será composto exclusivamente por blockchains especializadas. Redes generalistas continuarão tendo vantagens importantes, principalmente quando efeitos de rede, liquidez e composição entre diferentes aplicações forem decisivos.
O que pode surgir é um ecossistema no qual diferentes tipos de blockchain coexistam. Algumas redes podem funcionar como plataformas generalistas, enquanto outras se especializam em pagamentos, identidade, ativos financeiros, jogos, infraestrutura empresarial ou outros setores.
A interoperabilidade passa a ser fundamental nesse cenário. Se diferentes redes assumirem funções distintas, elas precisarão ser capazes de movimentar ativos e informações entre si. A integração com mecanismos como o Chainlink CCIP, portanto, não é apenas um recurso adicional da Arc, mas parte de uma tendência mais ampla de construção de um ambiente blockchain composto por múltiplas infraestruturas especializadas.
A possível transformação da liquidação financeira
Talvez a consequência mais significativa da proposta da Arc esteja na possibilidade de transformar a própria ideia de liquidação financeira.
Nos sistemas tradicionais, uma transação econômica pode envolver várias etapas. Uma instituição registra uma ordem, outra confirma a operação, diferentes sistemas atualizam seus registros, uma infraestrutura realiza a compensação e, posteriormente, ocorre a liquidação definitiva.
A blockchain permite combinar algumas dessas etapas em um ambiente compartilhado. Quando dinheiro e ativos são representados digitalmente e os contratos inteligentes conseguem verificar as condições de uma operação, determinadas atividades podem ser executadas de forma automática.
A Arc foi projetada para explorar justamente essa possibilidade. A combinação entre finalização determinística em subsegundos, stablecoins, ativos tokenizados e contratos inteligentes cria as condições técnicas para modelos de liquidação nos quais o intervalo entre execução e finalização pode ser significativamente reduzido.
Isso pode ser particularmente relevante para operações que envolvem garantias e liquidação entre diferentes instituições. Se um ativo tokenizado puder ser movimentado simultaneamente com o dinheiro utilizado para sua aquisição, parte do risco operacional associado à separação entre entrega e pagamento pode ser reduzida.
Também existe uma dimensão temporal importante. Uma blockchain que funciona continuamente pode permitir que determinadas operações sejam liquidadas fora dos horários tradicionais dos mercados, desde que os demais componentes da operação também estejam preparados para funcionar dessa maneira.
Isso não significa que todos os mercados financeiros passarão imediatamente a operar 24 horas por dia ou que a Arc eliminará os riscos de liquidação. Questões jurídicas, regulatórias, operacionais e de liquidez continuam existindo.
A transformação potencial está em tornar a liquidação programável, contínua e diretamente integrada à representação digital dos ativos.
Arc como tentativa de aproximar blockchain e infraestrutura financeira tradicional
No fim, a Arc pode ser entendida como uma tentativa de construir uma ponte entre dois mundos que durante muito tempo evoluíram separadamente.
De um lado está o universo blockchain, baseado em contratos inteligentes, ativos digitais, liquidação on-chain e infraestrutura programável. Do outro está o sistema financeiro tradicional, com bancos, fundos, mercados de capitais, empresas de pagamentos, custodiantes e estruturas regulatórias.
A Circle não está tentando simplesmente transportar o modelo tradicional para uma blockchain. A proposta é combinar elementos dos dois ambientes: utilizar a programabilidade e a liquidação on-chain das blockchains, mas incorporar características que instituições financeiras consideram importantes, como validadores identificáveis, previsibilidade, controles, privacidade e integração com ativos regulados.
É justamente por isso que a Arc não deve ser analisada apenas como mais uma Layer 1. Seu significado estratégico está na tentativa de transformar a blockchain em uma infraestrutura financeira institucionalmente utilizável.
O resultado dessa experiência ainda não está determinado. A Arc terá de demonstrar que consegue atrair desenvolvedores, instituições, liquidez e aplicações reais, ao mesmo tempo em que evolui seu modelo de validação e reduz sua dependência direta do ecossistema Circle.
Mas a direção é clara. Se stablecoins continuarem crescendo como representação digital de moedas fiduciárias e ativos financeiros forem progressivamente tokenizados, poderá surgir uma necessidade de infraestrutura especificamente construída para conectar esses elementos.
A Arc é uma das apostas mais explícitas nesse modelo. Seu projeto sugere um futuro no qual pagamentos, câmbio, tesouraria, crédito e mercados de capitais não necessariamente precisarão utilizar blockchains apenas como uma camada secundária de transferência de ativos. Eles poderão utilizar redes blockchain como parte da própria infraestrutura operacional e de liquidação do sistema financeiro.
Nesse cenário, o papel das stablecoins também muda. Elas deixam de ser apenas uma aplicação das blockchains e passam a ocupar uma posição central na infraestrutura econômica sobre a qual novas aplicações financeiras podem ser construídas.
É essa possibilidade, mais do que qualquer métrica isolada de velocidade ou capacidade de processamento, que torna a Arc um projeto relevante para acompanhar na evolução das finanças on-chain.
Conclusão
A Arc representa uma mudança importante na forma como a Circle pretende posicionar suas stablecoins dentro da economia digital. Em vez de depender exclusivamente de blockchains generalistas, a empresa criou uma infraestrutura própria na qual USDC, pagamentos, câmbio, ativos tokenizados e serviços financeiros podem operar em uma arquitetura desenhada especificamente para essas necessidades.
Sua combinação de EVM, execução baseada em Reth, consenso Malachite, finalização em subsegundos, taxas pagas em USDC, validadores permissionados e integração com infraestrutura financeira tradicional cria uma proposta bastante diferente daquela encontrada em Layers 1 voltadas prioritariamente à descentralização aberta e aplicações generalistas.
Ao mesmo tempo, a Arc ainda está no início de sua trajetória. Questões como descentralização, privacidade, evolução para Proof-of-Stake, adoção institucional e efetiva utilização do token ARC precisarão ser acompanhadas conforme a rede avance além de sua fase inicial.
Mais do que simplesmente lançar outra blockchain, a Circle está tentando construir uma camada de infraestrutura para uma economia em que stablecoins e ativos tokenizados possam funcionar como componentes permanentes do sistema financeiro global.





